O Mundo às Portas do III Milénio

O século XX foi, para milhões de pessoas, um século de libertação e de melhoria das condições de vida, mas para outras foi um século de dor e repressão. Foram, sem dúvida, 100 anos de mudanças permanentes a todos os níveis, rumo àquilo que no início do século se considerava ser o progresso, o desenvolvimento, um futuro próspero e risonho. Mas, apesar das grandes conquistas e vitórias que este século trouxe à Humanidade, sabemos hoje que muitas das esperanças depositadas no progresso foram defraudadas, olhando-se agora o futuro com algum receio e desconfiança.
Sob o ponto de vista político, os últimos anos foram marcados por afirmações de liberdade, emancipações políticas, pelo fim do colonialismo, pela emancipação de povos e culturas. Mas este caminho para a liberdade e autodeterminação não é, ainda, generalizado, e em muitos casos implicou conflitos sangrentos com enormes perdas ou deu lugar a novas guerras civis, interétnicas e nacionalistas. São os casos mais recentes a guerra da Bósnia e as limpezas étnicas no Kosovo, numa fase em que, finda a Guerra Fria, se achava ser possível a construção da paz duradoura no mundo. Na última metade do século, toda a geopolítica mundial se altera, o mapa-mundo de hoje é profundamente diferente do de há duas décadas.
Em termos económicos as alterações não são menos importantes. A abertura dos mercados para lá das fronteiras nacionais, a livre circulação de bens e serviços, a descoberta de novos recursos, o livre investimento, o poder de iniciativa individual e a própria democratização crescente de toda a economia em plena globalização são feitos deste século. A plena industrialização e a franca melhoria das condições de vida no pós Segunda Guerra Mundial, que marcaram os países mais desenvolvidos, depressa transformou a sociedade contemporânea numa sociedade de consumo, acomodada e confiante em relação ao futuro. Na China o capitalismo é associado ao comunismo, durante a liderança de Deng Xiao Ping, e mais tarde, após a queda do Muro de Berlim em 1989 e a desagregação do Império Soviético que se consuma em 1992, também a Europa de Leste se vai lançar no caminho do progresso e nas malhas do capitalismo desenfreado. A economia, cada vez mais aberta e global, acaba por sobrepor, muitas vezes, os seus interesses ao interesses políticos de cada país. Contudo, continua a haver crises financeiras gravíssimas, que os órgãos internacionais (Banco Mundial; Fundo Monetário Internacional) não conseguem solucionar. Continuam a morrer milhares de pessoas com fome e o fosso entre os ricos e os pobres - pessoas, comunidades ou países - é cada vez maior.
A própria economia, que tem sempre em vista minimizar os custos e aumentar os ganhos, cria um novo código de valores assente no lucro pelo lucro; buscando os recursos humanos e materiais onde eles são mais baratos, provocando a desertificação de algumas regiões, altas taxas de desemprego noutras e promovendo direta ou indiretamente a exploração humana. Num século marcado pela afirmação dos Direitos do Homem, as segregações sociais são cada vez maiores, já não baseadas na raça, cor da pele, sexo ou religião, mas assentes numa cultura profundamente materialista em que se mede o que cada um é por aquilo que tem. Desta forma, o capitalismo e a democratização da economia começam a pôr em causa os próprios fundamentos da democracia, criando na sociedade em geral um esvaziamento dos valores da solidariedade e do respeito pelo semelhante. Num mundo cada vez mais aberto, onde as distâncias físicas são facilmente ultrapassadas, o indivíduo encontra-se cada vez mais isolado e só.
O fosso social, a pobreza, a falta de valores e a ambição desenfreada acabam por desembocar em todo o tipo de malefícios típicos da sociedade contemporânea: a criminalidade; a miséria humana; os fanatismos religiosos, rácicos ou étnicos; a violência em todas as sua facetas; o desagregar das estruturas familiares; a opressão; a droga, etc.
Se nos anos 50, 60 e ainda nos anos 70, as descobertas científicas no campo da medicina e o seu combate e erradicação de muitas doenças graves que dizimavam milhares de pessoas criaram uma confiança generalizada nas capacidades da ciência, novas epidemias como a sida e doenças como o cancro vieram deitar por terra essa segurança. O futuro é agora menos promissor e muitas centenas de pessoas, por todo o mundo, recorrem a métodos de cura chamados alternativos e surgem novas religiões e seitas, que satisfazem ou pretendem satisfazer praticamente todo o tipo de necessidades físicas ou espirituais de uma sociedade cada vez mais vazia de conteúdo e esperança.
Por outro lado, essa mesma ciência, no seu percurso ascendente de descobertas e progressos, que indubitavelmente trouxe enormes melhorias para a vida dos homens, vem também criando dúvidas e controvérsias, nomeadamente no que diz respeito à manipulação genética de seres vegetais e animais. Esta é, sem dúvida, uma questão ética e moralmente complexa, que este século deixará ao próximo para solucionar.
Outro problema que fica por resolver é o da crescente pressão demográfica que se sente um pouco por toda a parte, mas muito especialmente nos países subdesenvolvidos e em vias de desenvolvimento. Em 1990 a população mundial estimava-se em 5,3 biliões de pessoas, com uma taxa de crescimento de 90 milhões de pessoas por ano. Estes números são assustadores, numa fase em que se toma consciência das limitações dos recursos, suscitando mais preocupações os recursos hídricos e alimentares. A grande maioria da população encontra-se concentrada em grandes cidades, muitas vezes sem as devidas condições de trabalho e habitação, aumentando de forma alarmante as taxas de indigência e marginalidade. O desemprego e o colapso de muitos sistemas de providência e assistência aos desfavorecidos e de proteção na velhice vão também contribuir para o aumento da pobreza dentro das grandes cidades.
O século XX foi ainda o século do despertar para as questões ecológicas e para os crimes contra o planeta Terra cometidos em todo o mundo, em nome do desenvolvimento, do progresso e da comodidade do Homem. A desertificação do planeta, a poluição dos mares e da atmosfera, o buraco do ozono, a extinção de cerca de 15 mil espécies animais e vegetais por ano, o uso desenfreado dos recursos naturais, as catástrofes ambientais, e as consequências - cada vez mais visíveis - que tudo isto tem na vida das pessoas faz mover a opinião pública em geral, e as gerações mais jovens em especial, no sentido de um novo valor a proteger, um novo objetivo a atingir: o desenvolvimento equilibrado, planeado e em harmonia com a Natureza.
Mas se esta é uma importante lição que nos ficou do final deste século, ficam também todas as mazelas, profundas e irreversíveis, que já foram e continuam a ser inculcadas no Planeta Azul.
Os avanços técnicos na informática e nas tecnologias da informação são outro dos importantes legados deste século. As comunicação por satélite, e a Internet, as chamadas "autoestradas das informação" permitem realizar um sem-número de coisas que há poucos anos seriam impensáveis. As distâncias físicas tornam-se irrelevantes, tudo está à distância de uma tecla e o Mundo é agora a "aldeia global". O conflito bélico que em 1990 opôs americanos, ingleses e franceses ao exército iraquiano, a Guerra do Golfo, foi visto por milhões de pessoas em direto pela televisão. A informação assume uma importância vital em praticamente todos os quadrantes do quotidiano, sendo mais um valor criado pela sociedade do final do século.
O balanço geral do século XX é complexo e dúbio. De certa forma a voragem do progresso revelou-se um logro em muitos aspetos e a desconfiança em relação ao futuro pode ser um sinal de prudência ou mesmo de amadurecimento. Mas não podem ser esquecidas as conquistas com vista à liberdade, à justiça, à igualdade e à solidariedade que tiveram palco ao longo destes 100 anos. Esses valores, necessários hoje mais que nunca, devem acompanhar a Humanidade neste novo milénio, bem como todas as más recordações, no intuito de não se repetirem os erros do passado.

Como referenciar: O Mundo às Portas do III Milénio in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-02-20 03:11:10]. Disponível na Internet: