O Pescador à Linha

Rodeado de objetos que põem em ação a memória materializada em situações em que revive o passado ou na representação de "Recordações Menores", o Pescador, aguardando um fim anunciado, dita a uma dactilógrafa a sua biografia, numa revisão crítica sobre o seu itinerário, sobre o fracasso do amor e da amizade que o conduziram a uma situação de solidão e incomunicabilidade. Não esperando "a vinda de nenhum Godot, embora no íntimo a deseje" (cf. FÈTEIRO, Carlos Paniágua, posfácio a Seis Peças, Lisboa, 1974, p. 237), o Pescador, entre gestos de derrota e a lucidez irónica, equaciona em si a relação entre o homem e os outros homens, deixando em aberto uma mensagem de esperança, há quarenta anos sem resposta: "Alguém deve vir, repito: deve vir alguém. Apelo aos outros pescadores à linha... Alguma coisa é ainda possível para todos se alguém vier..." Com recurso às técnicas de teatro dentro do teatro nas encenações do passado e de desmistificação da convenção teatral quando as personagens aludem à própria representação, manejando habilmente técnicas teatrais não-textuais, colocando em derisão o discurso lógico e evidenciando o absurdo da condição humana, O Pescador à Linha integra, temática e formalmente, nas palavras de Carlos Paniágua Fèteiro, um "teatro para o nosso tempo" (id. ibi., p. 241).
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