O Pobre de Pedir
O último livro de Raul Brandão, redigido alguns meses antes da sua morte e publicado postumamente, deixando transparecer, na angústia de redenção do protagonista, certa premonição do seu fim próximo, é, a par de outras obras do autor como A Farsa, Os Pobres, ou Húmus, um dos romances formal e tematicamente mais inquietantes da novelística portuguesa da primeira metade do século XX.
Dando voz a um anti-herói que enceta um processo de revisão moral que o conduzirá in extremis a uma tentativa de conversão, este romance traz relativamente à precedente obra romanesca do autor, dotada de certa homogeneidade na análise obsessiva de uma metafísica da dor, alguns aspetos inovadores, nomeadamente a expressão de uma reivindicação de igualdade social de matriz cristã, pela qual o pobre se torna uma encarnação de Cristo.
Tendo como pano de fundo a revolta coletiva dos que nada possuem, dos que secularmente trabalham uma terra que não é sua, o primeiro plano do romance é, deste modo, ocupado pela progressiva tomada de consciência de um narrador em cujo processo de autoacusação se ilustra o confronto entre uma mentalidade burguesa e os ideais de libertação dos que sofrem.
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