O Senhor Santo Cristo

Conta a tradição que no outono de 1713, durante um grande terramoto na ilha de São Miguel, um grupo de freiras saiu à rua em procissão com uma imagem de Jesus que, até então, não tinha grande culto. A elas se juntou o povo com andores e ladainhas e também os notáveis da terra com os seus trajes de cerimónia.

Passaram entre escombros e cadáveres até que um tremor mais forte fez cair a imagem de Cristo do andor para o chão, ficando esta direita sem se partir ou sequer sujar. Nesse momento, a terra parou de tremer, o mar amansou e o céu descobriu-se, nascendo assim a grande devoção ao Senhor Santo Cristo dos Milagres.
Sem autor, época, origem ou história definidos, a imagem do Senhor Santo Cristo é uma escultura única, de grande beleza e luminosidade, que uns dizem ser provavelmente do século XII, da escola de Bizâncio, mas de que ninguém sabe ao certo a origem.

A história da vinda da imagem para os Açores remonta a 1522, quando um grupo de raparigas, querendo dedicar-se à vida religiosa e não pretendendo sair da ilha, decidiu enviar duas representantes em segredo a Roma pedir ao Papa autorização para fundar uma comunidade religiosa. Comovido pela sua coragem, Clemente VII deu-lhes autorização para fundarem a comunidade das Clarissas Descalças e ofereceu-lhes uma imagem muito antiga e bonita que existia nos Museus Vaticanos.

Assim surgiu, no século XVI, o Convento de Nossa Senhora da Esperança, cuja celebridade resulta do facto de, na respetiva capela, se encontrar a imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres, colocada num camarim alto, com um valioso tesouro composto por um resplendor, cetro, corda, coroa (em ouro e com um ramo de flores com centenas de pequenos diamantes, esmeraldas, topázios e pérolas) e relicário do século XVII. Estas cinco joias incluem centenas de elementos preciosos em ouro, prata, diamantes, esmeraldas, rubis, ametistas e topázios, resultado de doações feitas ao longo dos séculos.

O Tesouro do Senhor Santo Cristo é de incalculável valor, considerado, juntamente com a Custódia de Belém, uma das obras sacras mais preciosas de Portugal. O resplendor é tido como a peça mais sumptuosa do arquipélago e uma das mais importantes de toda a Península Ibérica. As capas que todos os anos cobrem a imagem, profusamente "bordadas" de joias, são oferecidas pelos particulares em cumprimento de promessas.

A procissão do Senhor Santo Cristo, a maior manifestação religiosa açoriana, celebra-se no quinto domingo depois da Páscoa, pelas ruas atapetadas de flores, traçando o percurso onde se situavam os antigos conventos da cidade de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel.

Estas festas religiosas chegam a reunir cerca de 50 mil pessoas, entre devotos locais e emigrantes em peregrinação anual, muitas das quais retribuem graças com sacrifícios e oferendas e pagam promessas de joelhos à volta do Campo de S. Francisco.
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