Obra Breve
Em abertura, a autora explica o critério de organização desta antologia pessoal: "Em Obra breve, os pequenos livros de meus poemas reúnem-se de uma forma contígua - tal como foram vividos.
As cortinas delimitam, confundindo-os, livros e partes de livros; poemas inéditos preenchem alguns intervalos. Na verdade, cada livro tinha sido apenas um corte - a poesia vai sendo escrita, transformada, recordada, ao correr do tempo todo." Reúne, assim, entre volumes já editados, mas aqui, na maior parte dos casos, acrescentados e refundidos, e textos inéditos, as seguintes obras: Morfismos (1961), Barcas Novas (1967), (Este) Rosto (1970), Era (1974), Novas Visões do Passado (1975), Visões Mínimas (1968-1974), Homenagemàliteratura (1976), Melómana (1979), Natureza Paralela (1978), Área Branca (1976-1979), 14 Polissílabos sobre Anjos (1978-1980), Cântico Maior Atribuído a Salomão, 13 Poemas de Amor pelos Livros, Âmago I (Nova Arte), Entre os Âmagos (1983-1987), Três Rostos (1984-1989) (Âmago II (Nova Natureza), Poemas Previstos, Arómatas e Ecos) e Três Livros. Poesia nascida da consciência da impotência das palavras para comunicar uma essência e um sentido de ligação cósmicos perdidos, impotência redobrada pela erosão e desgaste que o tempo impôs às palavras, a escrita de Fiama nega a referencialidade de uma linguagem que, mediadora, contraria a relação direta do Homem com o mundo ("Toda a crítica tem exaltado o poema / como uma produção da mecânica manual / oposta à idade do amor espontâneo, / os jorros do lirismo. // (... (Como evitar que o fim da página / se ligue ao cosmos materialmente / e, em vez de tornar-se um tecido / tranquilo, o poema se desagregue, / repetindo assim o movimento / de que nascera e fora contrariado / pela escrita.
Ao chocalhar / todas as frases, os versos / caem uns dentro, / e o poeta vê-se perante a impotência / de os refazer sílaba a sílaba." ("Rosas, 10", in Área Branca)), reinvestindo a palavra da sua literalidade e aspirando a uma expressão pura: "Escrevo como um animal, mas com menor / perfeição alucinatória. Não sei imprimir as três linhas / convergentes do pé da gaivota, nem os pomos / leves da pata dos felinos. Só de uma forma rudimentar / escrevo, e estou a predestinar-me ao fim" ("Rosa", 17, in Área Branca).
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