Obra Poética

Colige Mais e Mais... (1932); Tanto (1934); Ainda (1938); Sangue (1952) e o inédito Gérmen, de 1960. A reedição de algumas destas obras sem as ilustrações de Júlio, que as acompanhavam nas primeiras edições, restringe o acesso a um conteúdo formado no diálogo entre a imagem e a palavra poética. E, no entanto, ao longo de Obra Poética, a arte pictórica transparece sempre neste pintor e poeta, constituindo a intertextualidade entre as duas artes talvez o traço que sobressai com mais originalidade em Saul Dias. A importância das sensações sinestésicas, fundindo com frequência sons e cores ("O vago, longínquo tom / mudou-se em vivo escarlate.") ("A doce, iriada melodia, / roxa sombra na tarde escarlate", de «Música»), e sobretudo, das sensações cromáticas, instituem como travejamento da sua arte poética a elevação da cor a pura metáfora de sentimentos. Lírica e imediata, fantasiosa e natural, emotiva e contida, a poesia de Saul Dias é feita da capacidade de transformar pequenos nadas em "momentos carregados de significado" (cf. CASTILHO, Guilherme de - prefácio a Obra Poética de Saul Dias, Lisboa, 1962, p. 12); da recriação de quadros simples e micronarrativas que cristalizaram instantes evocados com amargura ou com saudade. É nessa medida que Guilherme de Castilho chama a atenção para a presença na sua poesia daquilo que designa como "saudosismo antecipado do presente", e que corresponde ao "pressentimento [...] de que qualquer momento sem aparente relevo nem significado no «atual» se poderá vir a transformar [...] no nódulo essencial da transfiguração poética da realidade" (id. ibi.).
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