Obra Poética

Recolha que inclui as obras, da autoria de João José Cochofel, já coligidas em 46.° Aniversário e O Bispo de Pedra (Instantes, Búzio, Sol de agosto, Os Dias Íntimos, Quatro Andamentos, Emigrante Clandestino, Uma Rosa no Tempo); todas as composições excluídas pelo autor nestas duas coletâneas; o inédito Água Elementar, os poemas concebidos para a homenagem poética a Gomes Leal e para o 50.° aniversário da Presença; a colaboração no n.° 52 (1938) da Presença e as poesias escritas para serem musicadas por Fernando Lopes-Graça. No prefácio a esta edição póstuma da obra completa de João José Cochofel, Fernando Guimarães considera que dos colaboradores na coletânea Novo Cancioneiro, Cochofel e Carlos Oliveira foram os que melhor conseguiram, por um equilíbrio formal que confere à poesia um carácter íntimo e depurado, corrigir a amplificação verbal predominantemente discursiva comum, quer à expressão lírico-dramática presencista quer ao versilibrismo que materializava as condições de acessibilidade e intuito pedagógico da poesia neorrealista. Próximo, pela forma discreta e clara, pela oposição entre o momento presente e o tempo perdido da infância, de um Pessoa ortónimo e pelo gosto do sensível ("O concreto, o real, coisas que me comovem./ É sobre os sentidos que vivo debruçado./ Fácil o que a vista enxerga./ O resto é-me vedado", poema XI de Sol de agosto) de um Caeiro, Cochofel acrescenta-lhes o conflito intrinsecamente neorrealista da necessidade de conciliar a visão ideológica com a vivência subjetiva; a oposição entre o eu e os outros que não têm "um gládio de dor/ a rasgar no peito/ uma chaga de amor" ("Dias Íntimos"); a náusea de uma cidade povoada por autómatos, tomada por uma calma vã, burguesmente indiferente ao sofrimento humano; uma alma dilacerada entre a "melancolia mansa", um sentimento de culpabilidade e o entusiasmo combatente e apelativo: "Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos,/ melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ - Sou o que faço" (Sol de agosto, XV). Espera cansada, entre o desencanto e o empenho, a composição que encerra a Obra Poética, excluída pelo poeta da coletânea Quatro Andamentos, define exemplarmente, no contexto da poética pessoal de Cochofel, a poesia como um "realejo/ dos sentimentos que estão/ entre o sonho e o desejo/ de os não sentir em vão".
Como referenciar: Obra Poética in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2021. [consult. 2021-03-05 01:27:16]. Disponível na Internet: