Obra Poética

A relação do poeta com o espaço através da viagem, da chegada e da partida, constitui uma trave mestra da Obra Poética de Ruy Cinatti: desde o espaço ultraterreno, espaço do reencontro do poeta com um espaço e um tempo perdidos, em Nós Não Somos deste Mundo, às ilhas da ventura e da aventura fraternal, na mesma obra, viagens ainda muito abstratas e metafísicas se comparadas com as viagens dolorosas que haviam de se seguir, e de onde o poeta voltaria com a alma nua; à viagem mística de O Livro do Nómada Meu Amigo, dedicado, em epígrafe a si próprio, "ausente em Timor e Algures"; aos espaços reais que percorre entre deslumbrado e objetivamente crítico, e onde repete sob variadas formas "A Eterna Questão: O Próximo"; ao espaço impossível do regresso sob a forma de desterrado na própria pátria em "As Vivências de Lisboa" de O Tédio Recompensado; espaço que determinará então uma nova partida, desta vez e definitivamente para o espaço da recordação de outros espaços vividos, agora traídos, como Timor, mais que um espaço na autobiografia do poeta, ou, melhor, do seu itinerário hagiográfico, pelos trilhos de Santa Teresa e Santo Inácio (cf. "Ayn", 56 Poemas), um símbolo do amor, ponto da "integração total do homem-poeta" (CINATTI, Ruy - Obra Poética, p. 258). Quanto às formas da linguagem poética utilizada para a evocação desses espaços, elas descrevem um outro espaço, espaço de liberdade total, colado à respiração do poeta: "A poesia é a autobiografia do poeta e do nómada em escala de partida: o seu cântico." (Cinatti, Ibi, p.156).
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