Obra Poética (1972-1985)

Reúne as seguintes obras de Nuno Júdice: A Noção de Poema (1972), O Pavão Sonoro (1972), Crítica Doméstica dos Paralelepípedes (1973), As Inumeráveis Águas (1974), O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1975), Nos Braços da Exígua Luz (1976), O Voo de Igitur Num Copo de Dados (1981), Partilha dos Mitos (1982), Lira de Líquen (1985) e Rimbaud Inverso. A epígrafe de Rui Dinis à coletânea aponta como linha mais visível de leitura da poesia de Nuno Júdice a indistinção entre a teoria e prática poéticas, colocando o autor numa tendência da arte contemporânea que teoriza no ato mesmo de invenção. Obra poética e de teoria poética, ao longo das suas composições multiplicam-se e completam-se conceções de poesia, por vezes em diálogo intertextual com outros autores, demonstrando a viabilidade de "uma poesia que, contendo em si mesma a sua génese, pudesse demonstrar que toda a poética é uma prática, e que só a consciência poética é uma consciência prática" («Teoria Geral do Poema», in As Inumeráveis Águas). Evocando, pelo seu léxico, o misticismo e visionarismo românticos, a criação poética, alheia à "exigência ética dos cultores de realidade" («Regra de Composição», in O Pavão Sonoro), assume a sua não-referencialidade ("Nem no poema te reconstituo, sólida / figura de carne e osso que outrora apertei", «Vaga Lição. Fortuna», in Nos Braços da Exígua Luz), definindo-se como um duplo da realidade em que se funde subjetividade e objetividade: "...por exemplo, abrir a janela e ver os cumes das árvores balouçados contra um céu cinzento de trovoada: aquilo a que, em primeira instância, eu daria o nome de "estímulo poético primário", para passar depois a um nível superior na elaboração do vivido desse estímulo, a escrita do poema. Ele só existe, assim, porque o assumi na máxima subjetividade (e, aqui, o máximo de subjetividade confunde-se com o total objetivo, com o próprio ser real do objeto) - para o transformar. (...( A essa prévia composição juntei assim uma outra, não espontânea nem sequer influenciada por algo espontâneo (uma sensação, um impulso, etc.) - a poética. Este trabalho no próprio interior do objeto real (repito), assumi-o naquela fração de eu próprio que, subitamente, se desprende e, liberta da condição anterior, em algures paira e se instabiliza." («Fragmento de uma "Obra Filosófica"», in O Pavão Sonoro).
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