Obra Poética 1948-1988

Introduzida por um estudo de Eduardo Prado Coelho, a Obra Poética de David Mourão-Ferreira colige, com inúmeras pequenas alterações e algumas supressões, os volumes A Secreta Viagem, Tempestade de Verão, Os Quatro Cantos do Tempo, À Guitarra e À Viola, Infinito Pessoal, In Memoriam Memoriae, Do Tempo ao Coração, Cancioneiro de Natal, Matura Idade, Órfico Ofício, Entre a Sombra e o Corpo, Ode à Música, Os Ramos Os Remos, O Corpo Iluminado e No Veio do Cristal. Constituindo, segundo indicação do autor (posfácio a A Arte de Amar, 1967, p. 156), as obras editadas entre 1950 e 1962 um primeiro ciclo da sua criação poética, e fundindo a arte de amar com a arte poética, pela mesma exaltação sensual do corpo do desejo e da corporalidade rítmica da palavra, A Secreta Viagem abre um itinerário a dois, onde a temática amorosa se desdobra na dupla face do erotismo e da vivência do tempo como princípio de mudança e de desgaste. O segundo volume publicado na década de 50, Tempestade de Verão, inscreve o discurso do poeta que reagira contra a "imediatez da inspiração e contra o impuro aproveitamento da poesia para fins sociais", através do equilíbrio "entre os motivos e a técnica, entre os temas e as formas" (cf. MOURÃO-FERREIRA, David - "Notícia sobre a Távola Redonda" in Estrada Larga 3, p. 392), nas circunstâncias históricas precisas de uma época que o obrigou a submeter-se à experiência da guerra ("Maldito seja quem faz / profissão da nossa morte!", "Écloga em Tempo de Guerra"), que impôs o "Silêncio" e o medo ("Um hálito de medo embaciando o vidrado / dá-nos um estranho ar de fantasmas ou fetos /. Na silente armadura, e sobre si fechado, / ninguém sonha sequer sonhar sonhos completos." p. 60), num tom de pessimismo e disforia que assumem tons apocalípticos no "Canto IV", correspondente ao inverno, de Os Quatro Cantos do Tempo, em composições como "Fado para a Lua de Lisboa", "Litania de Sombra" ("Não perguntem nada: nós estamos dentro / do aro de frio, no frio do muro, tão longe, tão longe da feira do Tempo / Não perguntem nada. Nós estamos mudos.") ou "O Bombardeiro no Crepúsculo". Outro dos traços recorrentes nas primeiras coletâneas coloca a escrita deste colaborador da revista Távola Redonda em diálogo intertextual com autores da lírica tradicional, seja pelo recurso a géneros praticados pela tradição poética portuguesa, desde os cancioneiros primitivos até aos repositórios românticos, como a elegia, a écloga, a canção, a ode, a alba ou o soneto; seja até pela reformulação no presente de temas e lugares-comuns da literatura clássica, como o da prisão de amor (cf. "Soneto do Cativo", p. 98) ou o desconcerto do mundo (cf. "Do Tempo ao Coração"). Configurada cada vez mais a partir dos movimentos que vão "Do Tempo ao Coração", o tempo e o amor instituem-se temas principais da obra poética de David Mourão-Ferreira, seja sob o signo do desgaste, caducidade humanas ("Morte, que te insinuas / como um navio torto, / avançando às escuras / no meu corpo", "Navio"), ou da mudança; seja ainda da busca da poesia como busca amorosa: "E só vogais abertas sob a carne / só líquidos fonemas sobre a pele / só duras consoantes na juntura / dos ossos que entre as dunas não pousassem / Mas sobretudo a métrica implacável / de um verso noutros versos a fundir-se" ("Tríptico do Discurso em Verso"); seja dos jogos narcísicos em que se reescreve o presente à luz do passado: "Que o verbo seja um espelho / Ao mesmo tempo um véu / Que não baste no lago a pureza do rosto // A lira é com certeza a mão esquerda de Orfeu / Mas é a mão direita a que revolve o lodo" ("Ars Poetica").
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