Os moçárabes

Os moçárabes eram os cristãos que permaneceram com os árabes continuando com a sua administração e governo, vivendo em bairros separados. A sua condição legal foi agravada a partir dos reinos da taifa e ainda mais com os Almorávidas, sendo objeto de perseguições por parte de Abderramão II. Os Almóadas foram ainda mais intolerantes com estas comunidades, demolindo igrejas cristãs e expulsando os moçárabes, sobretudo os de Marrocos, que se refugiaram em Castela. À medida que as conquistas cristãs avançavam, a vida dos moçárabes nos territórios muçulmanos tornava-se mais difícil, levando-os a refugiarem-se em praças cristãs.
O Norte e o Sul da Península Ibérica, separados pela Meseta Central, para além de um relacionamento natural mútuo, mantêm contactos com zonas afins, numa corrente migratória constante que acabou por acentuar dependências étnicas e civilizacionais. Enquanto que o Norte, desde muito cedo, se liga à Galiza, o Sul prolonga-se para a África do Norte e, de uma maneira geral, para as rotas do mar interior.
A partir do século IV d. C., as estruturas políticas do Império Romano começam a desvanecer-se e as funções urbanas são completamente reorganizadas por mercadores de origem oriental, criando novos polos de atração, em detrimento da antiga cidade do poder romano. Esta nova reorganização traz uma nova dinâmica social e económica a Lisboa e Coimbra e esvazia as antigas cidades de Scalabis e Conímbriga. Começam a esboçar-se os mecanismos de uma autarcia urbana, cuja tradição se perde no Mediterrâneo e que irá atingir o seu apogeu na época islâmica. São estas comunidades urbanas, islamizadas desde muito cedo, que irão introduzir a nova religião muçulmana, que afinal é a que melhor se molda aos seus interesses internacionais e aos circuitos de mercados.
A grande massa humana que enche as ruas das cidades é formada, na sua maioria, por uma diversidade de mercadores, artesãos e antigos camponeses que passaram a hortelãos-jardineiros, vindos dos locais mais diversos e de diferentes etnias. As ruas e bairros encontravam-se organizados em comunidades, sendo estas as responsáveis pelo carácter único da cidade mediterrânica. São cristãos moçárabes, são cristãos de culto oriental, são judeus ortodoxos ou já convertidos, são sírios, alexandrinos, sicilianos ou malteses de culto muçulmano que participam com regularidade nos ritos e festividades da sua paróquia.
No decorrer do século VIII, quando surgem os primeiros sintomas de arabização no Garb-al-Andaluz, em quase toda a Península Ibérica falava-se o latim. No entanto, o crescente prestígio árabe e o simultâneo enfraquecimento das autoridades eclesiásticas levam a uma imposição gradual no mundo urbano da nova língua.
Até há bem pouco tempo, considerava-se que a ocupação em massa da Península Ibérica pelos exércitos árabes, iemenitas, sírios e berberes tinha contribuído para uma rápida imposição da lei de Maomé, através de massacres ou empurrando para Norte os cristãos. Hoje, pelo contrário, dá-se pouca importância à contribuição das forças militares na islamização do Andaluz, salientando-se o contributo dos caminhos e rotas do comércio oriental no estabelecimento da religião muçulmana, que foi, no entanto, de progressão lenta e gradual. Só nos finais do século X os muçulmanos terão ultrapassado mais de metade de toda a população andaluza.
Se até meados do século X a maioria da população andaluza era não muçulmana, e a comunidade judaica não excedia as 10 mil pessoas, é fácil concluir da importância e da extensão do fenómeno moçárabe na história andaluza. Do ponto de vista religioso, interessa destacar duas facetas principais: a ortodoxia urbana, exacerbada no choque ideológico com o adversário, e, por outro lado, uma proliferação de cultos regionais, arreigados num meio rural ainda mal cristianizado e votado ao abandono pela Igreja, que perdera o poder secular. Nas grandes extensões interurbanas, onde se tinham enraizado os dialetos moçárabes, permaneceu também uma pesada tradição cristã, na sua vertente mais profunda, isto é, o culto dos mortos. Existiam cultos regionais em que era notória a sacralização cristã dos sítios e locais anteriormente habitados por outros deuses. Existiam pequenos mosteiros instalados em antigas villae romanas afastadas dos grandes centros urbanos.
A velha Igreja visigótica, adaptando-se à nova ordem, dispersa-se por alguns poderosos bispados que, durante séculos, vão ser os mediadores das comunidades moçárabes no diálogo com os alcaides e autoridades muçulmanas. Contestando um justificado isolamento perante as outras igrejas cristãs e o papado, em 924 o Papa João X enviou um representante à Espanha muçulmana, que reconheceu a ortodoxia e a legitimidade cristã da liturgia visigótica preservada pelos moçárabes.
Num outro sentido, existem notícias de outro tipo de simbioses e integração no mundo muçulmano. O monge João de Gorze, embaixador em Córdova de Otão, o Grande, em meados do século X, constata que os cristãos do al-Andaluz não comiam carne de porco.
Tudo indica que no Garb-al-Andaluz, a proporção de moçárabes no seio das populações urbanas era bastante elevada, à imagem do que se passava no al-Andaluz. E em Coimbra a sua presença era largamente maioritária, embora o seu culto em nada se assemelhasse àquele que os bispos do Norte impuseram depois de ocupar a cidade, em 1064. Nesta altura, durante os confrontos e as negociações para entregar a cidade, os moçárabes foram apelidados de traidores por se terem posto ao lado dos muçulmanos. Os confrontos serão ainda mais exacerbados quando o Concílio de Burgos, em 1080, abule o rito moçárabe. Os conflitos irão reacender-se ciclicamente até se tornarem nas revoltas generalizadas de 1111.
As comunidades moçárabes eram também bastante poderosas nas cidades do Algarve, que eram geridas por famílias locais. A capital da região é referida no século XI como "Santa Maria", denominação que evidencia a presença poderosa de uma comunidade cristã. No extremo da terra, sobre o promontório sagrado dos antigos, encontrava-se a igreja do Corvo (Vila do Bispo), citada pelos cronistas árabes como símbolo do moçarabismo ocidental.
O Islão, última grande civilização mediterrânica, com todos os seus saberes milenares e culturais, foi não só o transmissor do mundo clássico para os tempos modernos, mas também o agente ativo de uma síntese artística e estética inovadora, ainda hoje dominante nos países muçulmanos, e marcou durante vários séculos a produção artística do Ocidente em geral e da Península Ibérica em particular. Os melhores exemplos desta produção artística podem, ainda hoje, ser admirados no Sul de Espanha.
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