Peregrinação

Introdução
Peregrinação é o mais traduzido e famoso livro de viagens da literatura portuguesa. Foi publicado em 1614, pelos prelos de Pedro Crasbeeck, trinta anos após a morte do autor. Terá sido escrito entre 1570 e 1578 em Vale de Rosal, Almada; nela se misturam a história e a fantasia, sendo, por vezes, difícil saber onde começa uma e termina a outra.
Aliando aspetos autobiográficos e uma ficção verosímil e convincente, Fernão Mendes Pinto oferece-nos uma curiosa reportagem do impacto que tiveram os costumes orientais sobre os europeus da época, assim como um interessante testemunho da ação dos portugueses no Oriente. Declara que são três os objetivos que o levaram a escrever o livro: dar a conhecer os seus trabalhos aos filhos (função autobiográfica), encorajar os desesperados e os que se veem em dificuldades (função moral), ter quem dar graças a Deus (função religiosa). Mas, lidos os 226 capítulos da obra, fica-se com a impressão de que existe permanentemente um tom de sátira às habilidades enviesadas de muitos Portugueses por terras e mares do Oriente.
O que mais chama a atenção é o seu conteúdo exótico. O autor é perito - diz-se mesmo que pintor - na descrição da geografia da Índia, China e Japão e da etnografia: leis, costumes, moral, festas, comércio, justiça, guerras, funerais, etc. Notável é também a previsão da derrocada do Império Português, corroído por tantos vícios e abusos.
Afirma-se que é na Peregrinação que a prosa literária portuguesa prepara o seu período moderno. De facto, a naturalidade, o tom coloquial, o extraordinário visualismo apontam novos rumos que se irão ver realizados em Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett.

A obra
O início da Peregrinação coincide com a saída do autor da casa pobre de seus pais e a narrativa prolonga-se até ao seu regresso a Lisboa, 21 anos depois. A narração começa por desenvolver um episódio passado perto da costa portuguesa, com uma caravela que foi aprisionada e roubada por um corsário português, quando seguia de Lisboa para Setúbal. Partiu depois para a Índia e viveu na costa de Malabar uma série de aventuras. Mais tarde, e embora não possamos afirmar se esta referência é real ou apenas fruto do imaginário lendário do autor, narra-nos momentos passados na Abissínia. Vai, posteriormente, de Goa para Malaca na companhia do capitão Pero de Faria, aí se estabelecendo, apesar das saídas permanentes como embaixador, mercador e corsário.
A sua atividade comercial condu-lo ao Sião, ao Camboja, à Cochinchina e Tóquio.
Mais tarde, na companhia de António Faria, sai para as costas orientais da Ásia e ilhas do mar da China, onde viveu episódios extraordinários, nomeadamente o do roubo dos sarcófagos dos imperadores chineses, narrado de forma a comover os leitores.
Ao longo das suas descrições de cidades e civilizações, Fernão Mendes Pinto acumula a fantasia com diversos aspetos de verdade etnográfica de múltiplas terras orientais.
Na verdade, o livro está repleto de episódios emocionantes vividos pela tradição trágico-marítima, nomeadamente aqueles que retratam as dificuldades vividas pelos homens no mar e nas terras "achadas":
Mas o autor não deixou de criticar as atitudes menos dignificantes dos portugueses, como é o caso da denúncia de duas situações "comprometedoras de violências e extorsões praticadas nas costas da China". E fá-lo de forma convicta, afirmando Jacinto Prado Coelho que "a verdade e a indignação com que o faz integra-o naquele número de representantes da nossa espiritualidade que, denunciando perante a História as torpezas praticadas, isentam a Nação de uma conivência infamante."
A obra caracteriza-se pela "expressão do concreto", recorrendo com frequência a termos de guerra e marinha. Porém, o interesse da obra consiste no empenhamento do autor em "fixar a cor local" e em reproduzir o falar indígena.
Como referenciar: Peregrinação in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-03-21 09:26:23]. Disponível na Internet: