Poemas Lusitanos

A obra lírica de António Ferreira - sonetos, cartas, odes, elegias, éclogas, epitáfios, epigramas, um epitalâmio e os hendecassílabos da História de Santa Comba dos Vales - foram compiladas, pelo seu filho mais velho, Miguel Leite Ferreira, sob o título de Poemas Lusitanos, e dedicados ao príncipe D. Filipe. Para além dos géneros acima referidos, algumas edições dos Poemas Lusitanos englobam, também, a tragédia Castro e as comédias Bristo e Cioso.
Como outros países da Europa, nomeadamente a Espanha, e conforme refere o professor Marques Braga, in Poemas Lusitanos de António Ferreira, com prefácio e notas do mesmo, Portugal vivia e assimilava, no século XVI, a "idade do ouro da lírica".
Na verdade, tendo Sá de Miranda introduzido as novas formas métricas importadas de Itália, e propagado os novos ideais do Renascimento clássico, "bebidos" em Virgílio, Horácio, Plauto, Terêncio, Cícero, Platão, Sannazaro, Dante e Petrarca, os poetas portugueses, e ainda de acordo com o autor e obra acima citados, "apropriaram-se como de bens sem dono conhecido, das ideias que - naquelas formas - haviam difundido os italianos, e estes e os clássicos antigos da Grécia e de Roma abasteceram a Musa Ibérica de tal modo que nuns e noutros podem buscar-se (...) as fontes do nosso vasto caudal de assuntos e pensamentos poéticos". Destes poetas, António Ferreira foi, sem dúvida, um dos que mais se deixou "atingir" pela influência da Escola da Antiguidade Clássica e, principalmente, por Horácio ("... o meu Horácio a quem obedeço."), influência essa que fez dele um dos maiores humanistas portugueses. Assim, e segundo Francisco Dias Gomes, citado por Marques Braga na obra já referida, "Ferreira (...) foi o primeiro, que depois de aperfeiçoar a elegia, a carta horaciana, deu à poesia portuguesa o epigrama, a ode, o epitalâmio e a tragédia".
A exemplo de Horácio, António Ferreira, nos Poemas Lusitanos, cultivou, com muita seriedade, o seu engenho e o gosto por um estilo conciso e, imitando os poetas gregos e os latinos, deu, como Camões, um grande contributo para o enriquecimento da língua.
Refletindo uma grande influência de Petrarca, o seu grande mestre, os Poemas Lusitanos abordam temáticas e fazem retratos que exaltam, entre outros, os seguintes aspetos:

Sonetos
Totalmente compostas ao estilo petrarquista, estas composições denotam por vezes falta de criatividade, sendo os mais expressivos aqueles que se referem à morte da sua primeira esposa.

Cartas
Consideradas as suas obras mais perfeitas e refletindo um grande conhecimento de Horácio, as Cartas de António Ferreira são muito incisivas e exprimem desejos e vivências experimentadas pelo poeta: a vida na Lisboa da expansão marítima, o sonho de viver no campo, o amor físico e espiritual, etc.
Sobre as Cartas, conclui Garrett, citado por Marques Braga na obra acima indicada: "há algumas que podem pleitear em concisão e fino dizer com as boas do lírico romano. Quanto à pureza da moral, ao nobre patriotismo, àquele generoso sentimento da honrada liberdade de nossos avós, àquele entusiasmo da virtude: esse respira, mostra-se e resplandece em todas as suas obras".

Odes
As Odes de António Ferreira são, sobretudo, uma imitação de Horácio.
Segundo Rebelo Gonçalves, citado por Marques Braga na obra já referida, "Ferreira nas Odes ou amplifica ideas de composições análogas de Horácio, ou as adapta à apreciação moral de factos contemporâneos".
Assim, e conforme já fizera nas Cartas, o autor faz, por exemplo, na Ode I, e de acordo com Silvério Benedito, in Para uma leitura da Castro e Poemas Lusitanos de António Ferreira, "a exortação a que surja alguém que se dedique à poesia épica e, conjuntamente, exalta-se o uso e a ilustração da língua portuguesa", dirigindo-se o poeta aos "espritos" capazes de assumirem um "novo canto heroico e generoso / nunca ouvido". A estas exortações não é, com certeza, alheio o facto de, na época, muitos poetas continuarem a escrever em Castelhano, situação incómoda ao sentimento nacionalista que estará subjacente à escolha do título genérico de Poemas Lusitanos.

Elegias
Composições líricas de tom triste e terno, também as elegias de António Ferreira tiveram como modelo Horácio e os renascentistas italianos.

Éclogas
Seguindo os passos de Virgílio e de Sannazaro, António Ferreira bebeu a sua inspiração em Garcilazo e Boscán, nomes primeiros e introdutores, em Espanha, da poesia bucólica.
Havendo opiniões diversas sobre a poesia bucólica de Ferreira, Marques Braga, in obra citada, diz-nos que "Júlio de Castilho inclinava-se para o parecer dos que viam nas suas obras bucólicas uma certa doçura melancólica e encantadora, que se vê ter sido um dos característicos da sua índole".
Como referenciar: Poemas Lusitanos in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-12-12 06:49:34]. Disponível na Internet: