Poemas Políticos, (1952-1979)
Poemas Políticos reúne grande parte dos poemas de Egito Gonçalves incluídos nos volumes A Viagem com o teu rosto (1958), Os Arquivos do Silêncio (1963), O Fósforo na Palha (1970) ou publicados dispersamente em jornais, revistas e volumes coletivos. A antologia obedece ao critério de coligir composições consideradas como representativas de uma poesia militante, reflexo de uma situação política de censura e ditadura, ou sugerida por acontecimentos históricos concretos explicitados pelo autor numa "Nota" final à edição. A descodificação plena dos Poemas Políticos depende, pois, dessa contextualização revelada na "Nota do Autor", sem a qual apenas acederíamos a um sentido parcial ou difuso do texto poético, tanto mais quanto a produção poética sob a censura obrigou a estratégias de ocultação do referente histórico ou político a que as composições aludiam (sobre a distinção entre poema emocional e poema político, cf. Fernando J. B. Martinho - Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa na década de 50, 1996, pp. 380-381).
Em algumas composições, a relação entre o enunciado poético e os acontecimentos evocados é concebida de forma intencionalmente enigmática e atravessada por uma imagística surrealizante que tornam, ao leitor que não possua os mesmos denominadores históricos, inacessível o seu contexto concreto como, por exemplo, em "Eleição". A antologia, que abre com um dos poemas mais conhecidos pela intelectualidade portuguesa da oposição ao regime, e que deu título à publicação Notícias do Bloqueio, faz reviver um contexto de catástrofe bélica e opressão humana, a que o sujeito poético imprime frequentemente uma nota discreta de amarga ironia ("É necessário inventar uma gigantesca correia-sem-fim / que produza diariamente milhares de soldados, / que taylorize o exército e bata os recordes de produção." (in "Edital").
A certeza de que um dia todas as atrocidades serão passado, que a libertação virá mais tarde ou mais cedo condenam o sujeito poético a uma vida adiada ("Escreverei mais tarde / saudades da infância / e de pedras e rosas / sem dúbios sentidos. // Escreverei mais tarde / de um anel muito simples / e das tardes plenas / em que o amor se inscreve. // Mas agora deixai-me/ chorar sobre estas lágrimas.", in «Mais tarde sim») e a suportar indefinidamente o «Rolar do tempo», as "longas horas" em que vela o estertor dos homens, numa espera cansada e que parece já inconcebível ("Creio termos sido feitos para amar / tranquilos.
Creio sermos velhos / e termos já sofrido o necessário/ para comer em paz e ver o sol / cada manhã subir um novo dia / sem angústia alicerçada no nascente", in "Creio termos sido feitos para amar"). A parte final da coletânea é reservada essencialmente a composições que homenageiam personagens ou poetas contemporâneos que tiveram um destino trágico.
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