Poesia

Coletânea da poesia completa de Francisco Bugalho, organizada por José Régio, Alberto Serpa e Luís Moita, reunindo as obras publicadas em vida pelo autor (Margens, editado pelas edições Presença, em 1931; Canções de Entre Céu e Terra, edições Presença, 1940; e Paisagem, 1947), bem como Dispersos e Inéditos. No prefácio, José Régio assinala que o que distingue a poesia deste poeta presencista é o facto de não ser "nem predominantemente sentimental nem predominantemente intelectual", sublinhando o importante papel que os sentidos desempenham na sua composição. De um "classicismo moderno, em que se fundem as experiências tradicionais e certas conquistas da arte contemporânea" (cf. RÉGIO, José, prefácio a Poesia de Francisco Bugalho, Lisboa, 1960), aflora também nela um realismo que, segundo Régio, tem mais a ver com a evocação de certos detalhes concretos da paisagem alentejana (a casa, a terra, os animais, as gentes) do que com "preocupações políticas, sociais ou económicas". Poesia discreta, pode ser confrontada com a estética presencista, já pela expressão subjetiva de um eu na sua inquietação religiosa e existencial, oscilando continuamente entre a confiança na vida e o "mais mortal dos cansaços", já pela filiação na estética pessoana, abordando as problemáticas da dor de pensar e do sentir-se múltiplo. Na lírica de Francisco Bugalho, a paisagem alentejana, ocupando um lugar central como ponto de partida para a efusão emotiva, institui-se como espaço intermédio, "entre o céu e a terra", ponto onde o sujeito poético opera a interseção entre o concreto e o inefável ("Estes ceifeiros não sabem / Mais que a vida natural / Mas têm a intuição que cabem, / Às mãos que esta faina acabem, / Dons do sobrenatural."), encontrando na comunhão fraterna com a Natureza um bálsamo para as "angústias de alma".
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