Poesia (1958-1978)

A primeira parte desta antologia poética, da autoria de Ana Haterly, inclui excertos de Um Ritmo Perdido (1958); As Aparências (1959); A Dama e o Cavaleiro (1960); Sigma (1965); poemas inéditos ou publicados dispersamente, contemporâneos de Sigma; Poemas de Crítica e de Revolta (1964-65); a versão integral de Eros Frenético (1968); poemas contemporâneos de Eros Frenético, inéditos ou publicados dispersamente; 39 Tisanas (1969); 63 Tisanas (1973); 73 Tisanas (inédito) e textos dispersos escritos entre 1973 e 1977. A segunda parte reúne poemas inéditos ou publicados dispersamente entre 1959 e 1969; Anagramático (1970); Estruturas Poéticas. Operação 2 (1967); e Leituras do Poeta-Robot - Robot I e II (inéditos de 1968). As primeiras obras da coletânea refletem uma tendência barroquizante na poesia da segunda metade da década de 50, obtida pelo desenvolvimento da vertente conceptista do barroco, num discurso engenhoso que, sob a forma de jogos de ideias e de jogos de palavras, prenuncia experiências lúdicas com o significante linguístico das obras posteriores (cf. MARTINHO, F. J. B., 1996), pelo desenvolvimento de temáticas como a visão do mundo como ilusão, como aparência ("Quem sabe se abrem/ Ou fecham/ As portas que dão/ Do nada para o nada?/ Avança ou recua/ Quem se move no vácuo?", de A Dama e o Cavaleiro), a par de outros temas como a busca do outro enquanto busca de si mesmo: "O teu silêncio é a minha voz mais funda,/ O teu querer, a minha esperança intensa,/ De sorte que não existe morte/ Tua que a mim me não pertença", de A Dama e o Cavaleiro. A partir de Sigma, a poesia de Ana Haterly assume até à exaustão a desmistificação da ordem sintática e dos preconceitos retóricos da lírica tradicional, firmando um lúcido anti-sentimentalismo - que não deixa de criar momentos de superior lirismo - através da ironia e do humor ("Quando se atinge o nível da gargalhada reprimida começa a grande sabedoria", "Anagramático") e através de situações discursivas invadidas subitamente por imagens surrealizantes, pelo absurdo ou por efeitos de surpresa: "Foi num daqueles raros momentos em que me permiti a ousadia de ser poeta na antiga aceção portuguesa estava só e inexplicavelmente melancólica um desses estados emotivos brumosos de fim de tarde [...] rapidamente comecei a escrever tentando libertar-me dessa pressão exercida sobre mim e que me obrigava a essa urgente escrita porque as emoções são sempre urgentes não imaginas e foi então que pensando na chuva fina que caía lá fora e sentindo-me tão melancólica fui escrevendo rapidamente as palavras que ontem me dissera aquele engenheiro entusiasmado e essas palavras eram que quando se introduz num computador uma ficha errada o computador responde if you put garbage in you get super-garbage out se introduzires lixo dentro recolhes superlixo fora" ("35", in 39 Tisanas). Oscilando entre composições de largo fôlego discursivo, graficamente compactas, e poesias visuais apresentadas sob a forma de pictogramas ou de jogos lúdicos com o significante, a escrita desenvolve-se ciente de que a arte "como a/ entendemos há alguns séculos terminou" ("Teoria da Osolência. Um Poema-Ensaio" in Sigma), experimentando novas formas de exprimir uma essencialidade perdida, a "simplicidade única do íntimo" (Sigma) que as palavras dificilmente conseguem atingir.
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