Poesia 1949-1958

Volume que reedita os livros Mesa da Solidão (1955); Versos-Poesia II (1958) e A Aliança (1958), incluindo ainda uma seleção de poemas extraídos de As Sombras e as Vozes (1949); Poesia I (1955) e Parágrafos (1956) de Raul de Carvalho, efetuada por Afonso Cautela e Liberto Cruz. Pelo seu âmbito cronológico, esta coletânea apresenta-se, assim, representativa da atividade poética de um autor integrável na Geração de 50, e, mais concretamente, de uma tendência, manifestada nas folhas de poesia Árvore, para encontrar uma expressão equidistante e convergente relativamente a propostas esteticistas, surrealistas ou neorrealistas (cf. MARTINHO, F. J. B. - Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa da Década de 50, Lisboa, Colibri, 1996, p. 212). Com uma menção à parte para as composições extraídas dos primeiros livros, que se ressentem de um biografismo radicado no contexto alentejano, os volumes coligidos firmam a expressão do desencanto pessoal numa versificação que, embora parta do verso livre e de fôlego diverso, investe frequentemente em estruturas de reiteração, como o paralelismo e a enumeração. Reconhecido filho de Pessoa-Álvaro de Campos ("nunca li com vagar o Álvaro de Campos/ porque aquilo era demasiado meu para ser dele". ("Conversa a Sós")), a sua poesia evolui ao longo da coletânea, no sentido de uma maior libertação imagística (cf. "Para um Novo Livro de Cesário Verde: [eles] Têm as caudas leves e subtis dum peixe,/ têm um planeta adormecido e exangue,/ têm os olhos líquidos, de asfódelo ou de cobre,/ esses seres mitológicos que asfixiam a Terra.") "escarnada, sentida ou pressentida no imediatismo da sua expressividade, como rio caudaloso que arrasta na corrente tudo o que aparece à superfície" (FERREIRA, Serafim - Raul de Carvalho, Entre o Silêncio e a Solidão, Porto, Campo das Letras, 1995, p. 18), numa forma pela qual o sujeito poético reitera com dor a consciência de que "...a nostalgia/ de um bem que nunca foi/ é a morada predileta/ dos homens como eu", e busca ansiosamente um sentido para a existência, que concretamente só parece passar pela poesia: "Deus quis que eu plantasse a minha voz/ na terra árida/ que os meus dedos abrissem/ o caminho à água/ que a minha boca desfolhasse/ em toda a parte a música." ("Torre de Menagem")
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