Poesia, 1956-1979

Volume que reedita, com supressões, obras já esgotadas (Entre Dois Anjos, Tréguas para o Amor, Outros Poemas, Sobre as Horas, A Base e o Timbre, Media Vita), ou quase inéditas, como Ritmo Real, de Fernando Echevarría. Surpreendendo o leitor pela íntima harmonia entre ritmo e meditação, pelo desenvolvimento de uma poesia-conhecimento, desdobrada até ao limiar do indizível, nesta coletânea cria-se "a imagem dum eu cristalino que, porque se torna transparente a si mesmo, acaba por transferir o que afinal será a sua própria ausência para a descrição duma realidade que ficará presente sob a forma dum conhecimento radical" (GUIMARÃES, Fernando - JL n.º 3, 9-4-1988). Inscrita numa tendência neobarroca da poesia contemporânea, o fio condutor destas composições, que recobrem um período de cerca de vinte anos, reside, com especial agudização nos últimos títulos, na exploração de antíteses que fundam os poemas sobre algumas oposições, como sensível/inteligível, presença/ausência, amor/paixão, morte/vida, que tendem, mercê da irradiação significativa das palavras, para uma coincidentia oppositorum, onde a antítese se resolve num sentido total. Frequentemente aproximada de um neobarroquismo, se aplicarmos à poesia de Echevarría reunida em Poemas a distinção entre poesia cultista, enquanto artifício da forma, jogo com o significante linguístico, exploração de elementos pictóricos e musiciais, e poesia conceptista, enquanto artifício do conteúdo, jogo de ideias (cf. SÉRGIO, António - Ensaios, V, 2.a ed., Lisboa, 1955, p. 120), verificamos que, se é pertinente salientar para obras como Ritmo Real um investimento nítido na vertente "cultista", pela exploração de uma engenhosidade que passa pela musicalidade e pelo jogo construtivo, essa distinção cai por terra se atendermos à evidência de que, em grande parte dos textos poéticos, o jogo da forma é também um jogo de conteúdos (sobre o conceptismo do neobarroco, cf. MARTINHO, Fernando J. B., op. cit., 1996, p. 444). Porém, não podemos aceitar este barroquismo da poesia de Echevarría sem o matizarmos com um neomaneirismo, no que o dilaceramento interior do sujeito poético, preso por contradições insolúveis, se apresenta conturbado pela melancolia, na sua aceção renascentista ("Benzo-me em nome da melancolia, / ciência teológica que funda / sermos a história refletida / de não haver nenhuma"); e com um sentido de elevação mística (cf. "Noite Escura"). Ao mesmo tempo, assinala-se em Echevarría o influxo do simbolismo mallarmiano, sob o modelo do qual o autor de Media Vita visa a criação de um novo dicionário, onde cada palavra, muitas das vezes individualizada no título do poema ("Lágrima", "Rosa", "Cisne", "Pedra", "Estrela", "Brisa", etc.), evoca, no corpo do poema, totalidades de sentido esquecidas ou insuspeitáveis, a problemática da expressão poética, fundando-se, acima de tudo, na problemática do nomear: "Diremos lábio. E o olhar regressa à fonte / imóvel de uma vez se haver perdido / a frescura de ver-te caminhando limpa de sombra, num lugar antigo." Poesia reflexiva e gnoseológica, a escolha do soneto emerge ao longo de Poemas como molde justo para a condensação de súmulas rítmicas e filosóficas: "Analógica curva essa em que vamos, / minuciosos, levando a penitência / de sermos os pensados / em signos lendo a face que nos pensa. // E, nessa face, lermo-nos análogos / acende a curva e acende-se a ciência / de, minuciosos, nos iluminarmos / movendo análogos a morte na paciência // de, avançando por ela e nela estando, / irmos abrindo o canto em que regressa / analogia e morte perderem-se no salmo, // se o salmo for manhã que se começa / E, na manhã, a curva por que vamos / ilustra a face que, análoga, nos pensa." (Media Vita).
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