polifonia

O termo polifonia nasceu da constatação da heterogeneidade discursiva do sujeito enunciador, das múltiplas vozes que percorrem os discursos. O. Ducrot desenvolveu uma teoria, designada por Teoria Polifónica, em que mostra que nem sempre que um indivíduo produz um ato de enunciação se assume como responsável por ele.
Ducrot propõe três níveis de polifonia subjacentes a cada ato de enunciação. Num primeiro nível está o sujeito falante ou ser do mundo, a quem se opõe simetricamente uma entidade também real e que é o ouvinte empírico. O sujeito falante é o indivíduo que enuncia física e acusticamente o enunciado dirigindo-o para um ouvinte real que o escuta ou recebe. Num segundo nível de polifonia está o locutor, o responsável pelo enunciado que produz e que se distingue do sujeito empírico tal como o narrador se distingue do autor em narratologia. O locutor é uma entidade simétrica ao alocutário, instância a quem o locutor dirige o enunciado. Quer o locutor quer o alocutário se inscrevem na superfície discursiva através de deíticos pessoais de primeira e de segunda pessoas respetivamente.
Num terceiro nível de polifonia, o enunciador, entidade responsável de um dado ato de fala, opõe-se a destinatário, que nem sempre se identifica com o alocutário, podendo ser mais amplo. Ducrot (1980) mostra que no enunciado "A ordem será mantida custe o que custar" proferido pelo Ministro do Interior (=Locutor) se dirige a um alocutário coletivo constituído pelos cidadãos franceses, prevendo também dois destinatários: os bons cidadãos, a quem faz a promessa e os maus cidadãos, a quem dirige a ameaça. A diferença que O. Ducrot estabelece entre locutor e enunciador permite explicar o mecanismo da ironia: o locutor responsabilizar-se-á das palavras mas não do ponto de vista da ironia, tarefa deixada para o enunciador.
A polifonia é, portanto, uma característica incontornável do ato de enunciação, decorrente da subjetividade e da intersubjetividade do discurso.
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