Primeira Guerra Mundial no Ocidente e a Oriente

O grande poder do Reich tornou-se evidente aos olhos da comunidade europeia na Conferência de Berlim, 1884-1885, onde a Alemanha conseguiu reconhecer os seus direitos coloniais em África. Daí para a frente, até 1914, o país não cessou de crescer e aumentou a riqueza, a população e o rendimento nacional. No início do século XX, a Alemanha produzia grandes quantidades de aço, ultrapassando a produção da Inglaterra e da França; além disso a sua produção industrial era escoada para toda a Europa.
Nesta altura, a Inglaterra e a França mostravam-se já preocupadas com o potencial crescente deste país. O receio inglês surgiu, sobretudo, a partir do momento em que o kaiser Guilherme II mandou construir a sua esquadra de couraçados e a sua marinha se tornou o principal adversário dos ingleses. Por seu lado, os franceses temiam o desenvolvimento da indústria alemã e pretendiam recuperar os depósitos de ferro e carvão, principalmente na Lorena, que perderam para a Alemanha em 1870 (na sequência da sua derrota na Guerra Franco-Prussiana, 1870-71). Entre a França e a Alemanha subsistia também uma rivalidade económica motivada pela disputa na exploração das riquezas de Marrocos (fosfatos para a indústria química, por exemplo).
A política russa também entrou em colisão tanto com a Alemanha como com a Áustria, porque ao querer controlar o Bósforo e o estreito de Dardanelos interferia com o plano dos alemães e dos austríacos de dominar o império otomano. Entre a Rússia e a Áustria havia outro ponto de atrito: as duas nações estavam muito interessadas em dominar os reinos balcânicos da Sérvia, da Roménia, da Bulgária e da Grécia. Uma das principais razões que desencadeou a Primeira Grande Guerra foi o nacionalismo. Em si, esta doutrina, definida sinteticamente por um programa ou ideal assente na consciência de nacionalidade, não era um fator negativo, mas em muitos casos o nacionalismo oitocentista, perfilhado por muitos românticos, descambou para formas muito perigosas tais como o pan-eslavismo na Rússia, o nacionalismo sérvio, o revanchismo-francês e o pan-germanismo, centrado na Alemanha unificada por Bismarck.
Outro fator decisivo para o rebentamento do conflito e para a sua extensão foi o sistema de alianças estabelecidas neste período. O chanceler alemão Bismarck foi um dos grandes arquitetos destas alianças, quando depois da Guerra franco-prussiana (1870), resolveu isolar a França, através da criação no ano de 1873 da Liga dos Três Imperadores, composta pela Alemanha, a Rússia e a Áustria-Hungria, uma aliança desfeita com o Congresso de Berlim e substituída em 1882 por um acordo denominado Tripla Aliança, que unia a Alemanha à Áustria-Hungria e à Itália.
Este sistema de alianças também foi seguido por outros países. Assim, em 1890, a França e a Rússia discutiram um acordo militar para o caso da Alemanha ou da Áustria atacarem. Em 1904 a França e a Inglaterra ultrapassaram as suas rivalidades coloniais e formaram a Entente Cordiale, um acordo amistoso. Mais tarde, foi celebrada outra aliança informal que unia a França, a Rússia e a Inglaterra, a Triple Entente, uma ampliação da anterior.
Além destas alianças, formais ou não, houve outro tipo de associações, os entendimentos cruzados que frequentemente iam contra a Tripla Aliança ou a Tripla Entente. Em face deste débil equilíbrio, qualquer acontecimento poderia pôr em ação esta rede de alianças e entendimentos. E assim sucedeu com a situação vivida nos Balcãs, a válvula política que despoletou a guerra.
Esta região dos Balcãs era habitada por um conjunto de povos muito distintos entre si quer a nível religioso quer a nível rácico. Os Sérvios e Croatas eram povos eslavos, os primeiros seguidores da Igreja Ortodoxa e os segundos da de rito católico romano, enquanto os Búlgaros, descendentes de povos oriundos da Ásia Central, perfilhavam o mesmo rito dos Sérvios; os Romenos dividiam-se entre católicos e, essencialmente, ortodoxos, e os Macedónios e os Albaneses eram ou ortodoxos ou muçulmanos pois estiveram cerca de quatro séculos submetidos ao império otomano.
Com a queda do domínio turco na região dos Balcãs, após a Guerra Russo-Turca de 1877-1878, a Roménia, a Sérvia e o Montenegro mantiveram a sua independência enquanto a Bósnia e a Herzegovina passaram a ser administradas pela Áustria e Bulgária. A Rússia incentivou a Sérvia, a Bulgária, a Grécia e o Montenegro, através da ideologia pan-eslavista, a declararem guerra à Turquia, que resultou na 1.ª Guerra Balcânica de 1912, e mais tarde em 1913, quando desencadeia a 2.ª Guerra Balcânica, devido a desentendimentos entre Búlgaros e Sérvios acerca dos despojos de guerra. A Sérvia contou com o apoio das nações ortodoxas balcânicas, o que fez dela a maior potência desta região. Contudo, o avanço da Grande Sérvia foi travado pela Aústria-Hungria, a qual produziu uma espécie de estados-tampão em volta da Sérvia. Assim, a Sérvia ficou cercada de países dominados pela Aústria-Hungria (a Albânia, a Hungria, a Bósnia e Herzegovina e a Bulgária).
A 28 de junho de 1914, foi assassinado na Bósnia, em Sarajevo, o arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, vítima de um atentado da responsabilidade dos nacionalistas sérvios, da autoria de Gavrilo Princip, estudante. Esta ação acabou por desencadear a Primeira Guerra Mundial. De imediato, a Aústria-Hungria, apoiada pela Alemanha, atacou a Sérvia e acionou todo o complicado sistema de alianças e entendimentos. A Rússia colocou-se então do lado da Sérvia, levando a Alemanha a declarar-lhe guerra a si e à França, aliada de Moscovo.
A Alemanha ao pretender atacar a França, invadiu a Bélgica, um ato que trouxe para o conflito a Inglaterra, que por sua vez declarou guerra à Alemanha. Outros países como Portugal, o Brasil, a China, a Itália e os Estados Unidos, lutaram ao lado das Potências Aliadas constituídas pela Inglaterra, a França e a Rússia, enquanto outras nações como a Turquia e a Bulgária se aliavam aos Impérios Centrais da Alemanha e da Áustria-Hungria.
A Guerra na Europa desenrolava-se em três frentes distintas: a frente ocidental, a frente oriental e a frente Sul. A primeira destas frentes estendia-se da Bélgica à fronteira noroeste da Suíça, e era o principal palco de guerra, onde os alemães avançaram sem travão até serem detidos perto de Paris na Batalha do Marne (setembro 1914). Nos quatro anos que se seguiram assistiu-se a uma guerra de trincheiras, com pequeníssimos avanços e recuos para ambas as partes em confronto. Na Frente oriental, do Báltico ao Mar Negro, inicialmente as tropas russas avançaram até aos Balcãs, mas foram todavia obrigadas a retirar. O desgaste provocado pela guerra na Rússia contribuiu para a eclosão de uma revolução em 1917; em março do ano seguinte o país, então governado pelos bolcheviques (ramo mais radical que dominou a Revolução Russa de ideologia marxista), assinou um tratado de paz com a Alemanha, em Brest-Litovsk. A Rússia abandonava o conflito e alterava o xadrez da Europa Oriental.
Na Frente Sul, os italianos resistiram durante dois anos aos austríacos, mas em outubro de 1917 (batalha de Laporetto) foram forçados a retirar para o rio Piave, numa operação onde foram feitos cerca de 200 000 prisioneiros. O rio Piave (220 km), na região de Venécia, foi para os italianos a sua frente contra os austríacos, tendo resistido em junho de 1918 e sendo, em outubro, o ponto de partida da contraofensiva decisiva de Vittorio Veneto. Na Frente Oriental, em 1915, os ingleses, juntamente com os australianos e os neo-zelandeses, procuravam tomar aos turcos o estreito dos Dardanelos, de modo a que pudessem enviar algum apoio à Rússia pelo Mar Negro; no entanto, o ataque a Galípoli (atual Gelibolu, na Turquia) veio a ser uma das mais pesadas derrotas das forças aliadas. Apesar deste desaire, saíram-se bem na operação de proteção dos abastecimentos de petróleo no Irão e no Iraque, onde brilhara T. E. Lawrence, dito da "Arábia". Numa estratégia de debilitação do poderio turco, a Inglaterra incitou os Árabes, maioritários, da Turquia a revoltarem-se, prometendo-lhes em troca auxílio na formação dos estados árabes independentes, uma promessa quebrada depois da guerra.
A vitória dos Aliados tornou-se inevitável no momento em que os Estados Unidos da América declaram guerra à Alemanha, a 6 de abril de 1917. A entrada deste país no conflito deve-se à conjugação de uma série de fatores, os quais se traduziam num saldo altamente positivo para os EUA. Nesta altura, a opinião pública norte-americana concordava com esta tomada de atitude, ainda mais porque uma considerável parte da sua população era de origem britânica. Os americanos detinham um grande interesse financeiro nesta guerra, pois eram o principal fornecedor de material bélico, comprado a crédito pelos europeus para manter a guerra. Portanto, era muito mais proveitosa uma vitória dos Aliados. Mesmo porque os próprios americanos se sentiam relativamente ameaçados pelos constantes ataques dos submarinos alemães aos seus navios que transportavam recursos para os Aliados na Europa ou exportações para outras regiões. Também Wilson, o presidente norte americano de então, via com bons olhos esta guerra, a qual se poderia traduzir numa oportunidade de desenhar uma nova ordem mundial, assente numa Liga das Nações. Os americanos, por outro lado, não queriam favorecer uma Europa coesa que pudesse desafiar a sua supremacia económica e participavam no conflito para garantir uma posição decisória na futura ordem mundial.
Durante a guerra foram tentadas algumas soluções para encontrar a paz. As propostas mais coerentes vieram dos partidos socialistas europeus, do Papa Bento XV e do presidente norte americano, que na mensagem ao Congresso de 8 de janeiro de 1918, enunciou a Proposta dos Quatorze Pontos. Simultaneamente era exigido que o kaiser Guilherme II fosse afastado do trono. Os alemães não acataram estas exigências, o que motivou uma grande ofensiva dos Aliados na frente ocidental, lançada em julho, da qual resultou a retirada dos alemães para a fronteira da Bélgica.
Em setembro, os Impérios Centrais não tinham já hipóteses de vencer este conflito. A Búlgária foi o primeiro país a render-se, a 30 de setembro, sendo seguido pela Turquia a 4 de outubro. Por fim, a 3 de novembro, a Áustria retirava-se da guerra, deixando sozinha a Alemanha. Mas, pouco depois, a 10 de novembro, o Kaiser é compelido a exilar-se e na madrugada do dia seguinte acaba a Primeira Guerra Mundial, com a assinatura do Armistício.
Nesta guerra foram introduzidas novas armas como o gás tóxico, usado pelos alemães, que apenas podia ser combatido com o aparecimento das máscaras de gás; desenvolvem-se os aviões e a guerra aérea; a Inglaterra aposta nos carros de combate para desafiar e combater as táticas agressivas alemãs; e os submarinos demonstram ser uma poderosa arma. A par destas inovações tecnológicas, também se alteraram as táticas de combate. A guerra aberta deu lugar, na maioria dos casos, a guerras de trincheiras. Isto numa época em que ao mesmo tempo se combatia nos bastidores, desenvolvendo-se uma grande atividade diplomática.
Neste conflito estiveram envolvidos cerca de 65 milhões de soldados e destacaram-se algumas figuras militares, como o estratega da Batalha de Marne, o general francês Joffre, o general Foch, também da mesma nacionalidade, que veio a assumir o controle das forças aliadas, o general Von Klück, alemão, que esteve às portas de Paris, e o general britânico John French, comandante do Corpo Expedicionário Britânico.
A guerra provocou aproximadamente 10 milhões de mortos e 20 milhões de feridos, muitos dos quais extremamente mutilados, principalmente graças às duras condições das trincheiras e do tipo de guerra que aí se desenrolava, complementado com o uso de gases e armas químicas. Cidades foram arrasadas, e um considerável património cultural e histórico para sempre destruído. Além destes elevados custos da guerra muitas nações tiveram de viver sob uma economia de guerra, o que permitiu o aparecimento de economias paralelas.
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