Questão das Canárias (séc. XIV-XV)

É muito difícil determinar a data exata do descobrimento das ilhas Canárias no Atlântico, as célebres "Ilhas Afortunadas" da mitologia e que terão sido visitadas pela primeira vez pelos Fenícios. Embora só apareçam representadas na cartografia pela primeira vez em 1339, é muito provável que navegadores italianos (como os Vivaldi), portugueses ou espanhóis as tenham conhecido antes dessa data. O facto de serem ilhas habitadas por uma população aguerrida dificultou desde cedo as tentativas de ocupação, como a de Lançarote Malocello, entre 1312 e 1330, e a de Angiolino Corbizzi (florentino) e Niccoloso de Reccho (genovês), entre julho e novembro de 1341, às ordens de D. Afonso IV. Devido talvez aos escassos lucros proporcionados por estas e outras expedições não se conhecem outras iniciativas deste género. Contudo, houve sempre algum interesse por estas ilhas; em 1344 a Santa Sé estabeleceu o reinado das Canárias, à frente do qual colocou D. Luís de La Cerda. No entanto, este reinado nunca passou de um simples projeto pois não havia meios para o manter e os estados ibéricos, a quem o Papa solicitara apoio, negaram sempre auxílio. Quer Afonso XI de Leão, quer Afonso IV de Portugal alegavam que as Canárias lhes pertenciam. A segunda grande tentativa de ocupação do arquipélago foi bem sucedida. A partir de 1402 e 1418, Jean de Bettencourt lidera uma série de expedições, dominando várias ilhas, e reconhece desde logo a suserania de Henrique III de Castela. A Guerra dos Cem Anos entre a França e a Inglaterra coloca-lhe dificuldades no abastecimento das ilhas e, por isso, vende os seus direitos feudais ao conde de Niebla (1418). Apesar de a posse das Canárias estar agora garantida para Castela, Portugal não desiste dos seus intentos, sobretudo porque o projeto de expansão se começa a esboçar, e elas passam a ser encaradas como uma base de apoio para as expedições em África e um ponto de escala e proteção das navegações, para além das vantagens no tráfico de plantas tintureiras, madeira e escravos. Ao que parece, Portugal terá mesmo, a partir de então, organizado diversas expedições militares com o objetivo de conquistar ilhas não ocupadas por Castela, em 1415, 1416, 1424 e 1427. Destas, é mais conhecida a de 1424, comandada por D. Fernando de Castro, que comportava 2500 homens, não conseguindo derrotar os canários. Contra ela, levantou-se o protesto de D. João II de Castela, formalizado por Alfonso de Cartagena e ignorado pelos portugueses, mas ouvido no Concílio de Basileia (1435), onde foi retirado ao infante D. Henrique o domínio sobre uma das ilhas pagãs. O infante obterá esse ambicionado domínio em 1448, quando Maciot de Bettencourt lhe vende Lançarote, contra o que Castela nada pode fazer. A ocupação desta ilha estará a cargo de Antão Gonçalves, que acaba por ser expulso pelos habitantes (indígenas e cristãos). D. Henrique renuncia à sua posse em 1454. No ano seguinte, Henrique IV de Castela doou aos condes de Atouguia e Vila Real o senhorio da Canária, Tenerife e Ferro (ainda não ocupadas por cristãos), sendo este senhorio transferido para o infante D. Fernando. D. Afonso V, seu irmão, procurou validá-lo junto da Santa Sé, mas foi anulado pelo Papa em 1468. Finalmente, no Tratado de Toledo (6 de março de 1480), Portugal abandona definitivamente qualquer pretensão sobre este arquipélago, depois de, no ano anterior, ter reconhecido a soberania castelhana das ilhas pelo Tratado de Alcáçovas (1479).
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