Questão do Tibete

O Tibete, o "teto do Mundo", ocupa uma extensão de cerca de 1 221 000 km2 no seio da República Popular da China, de que é uma região autónoma (denominada Xizang) desde 1965, embora esteja ocupado por Pequim desde 1950. Um processo histórico nada pacífico, convertido numa das reivindicações independentistas mais originais do mundo, pela política de não violência desde 1959, quando as revoltas populares foram definitivamente esmagadas pelos ocupantes chineses. A partir daí, a revolta é levada a efeito fora do Tibete, com o apoio de boa parte da comunidade internacional. 

O Tibete é uma região, vasta, com algumas das maiores elevações de terreno do mundo, com uma identidade étnico-linguística própria desde há mais de 2000 anos, além de ser um dos mais importantes centros budistas, com destaque para a corrente do Lamaísmo, o Budismo dos Lamas (monges de hierarquia superior, mestres espirituais), ou Vajrayana, predominante na região tibetana, conferindo-lhe uma autenticidade e propriedade distintas dos territórios envolventes, como a China. Esta, procurou desde o século XVII o domínio desta imensidão de montanhas e mosteiros de Lamas, objetivo alcançado nessa centúria, quando foi proclamado em Pequim o domínio chinês sobre o Tibete. 
O país recuperou a independência em 1912, aquando da queda e ruína do sistema imperial chinês e da sua última dinastia reinante, os Qing. Todavia, o isolamento montanhoso e a identidade cultural e religiosa próprias dos Tibetanos não involucraram o país de forma a impermeabilizá-lo à cobiça estrangeira, principalmente de Pequim. A independência do país era frágil, de facto, à mercê de potências estrangeiras, como no tratado de Simla, em 1914, em que Britânicos, Chineses e Tibetanos dividiram o Tibete em várias regiões, o que se gorou depois e resultou em acordos anglo-tibetanos, sem a China, que também não fortaleceram a autonomia do país. Entre ambas as Grandes Guerras, o Tibete foi perdendo interesse internacional e tornando-se um assunto praticamente chinês, mas sem grandes atenções de Pequim. 

A China, todavia, nunca renunciou ao interesse histórico da ocupação do Tibete, pelo que o regime comunista liderado por Mao Tse Tung (1893-1976) ordenou a sua invasão em 1950. 40 000 soldados chineses, numa altura em que as atenções do mundo se centravam na Coreia, entraram em outubro daquele ano em Lhassa, capital histórica do Tibete. Nenhum estado soberano estrangeiro apoiou o Tibete ou foi em seu socorro, pelo que em 1951 o país ficou sob controlo total da China. 

A Índia reconheceu, pelo contrário, o Tibete como região chinesa em 1954. Gradualmente, a China começa a manipular a hierarquia religiosa, mantendo lamas "fantoches" e promovendo grandes obras para acabar com isolamento do Tibete, como a estrada Lhassa-Xinjiang, embora com trabalhadores tibetanos forçados. Por outro lado, a imigração chinesa para o Tibete começa, de forma a procurar criar-se uma base étnica que suporte a soberania de Pequim no território. 

As insurreições sucedem-se um pouco por todo o Tibete, cada vez mais ao longo da década de 50, com duras repressões chinesas, pois suspeita-se que a CIA, espionagem dos EUA, estivesse a apoiar algumas sublevações. Assim foi em 1956 no Tibete oriental, estendendo-se à capital, Lhassa. A intervenção chinesa culminou na derrota da revolução tibetana em 1959, com a perda de milhares de vidas entre os revoltosos e os bombardeamentos de mosteiros e aldeias. 

O 14.º Dalai Lama, Tenzin Gyatso e mais 100 000 seguidores fugiram então para a Índia, onde estabeleceram uma capital no exílio, Dharamsala, com um governo tibetano. Até 1969 contaram com o apoio da CIA, mas depois os americanos "desapareceram" da retaguarda do movimento e a oposição enfraqueceu. Em Lhassa, o Panchen Lama, uma incarnação budista "inventada" pelos Chineses, governava o Tibete, mas sem qualquer poder e apenas para manter o Lamaísmo. Em 1965, todavia, Pequim secularizou o Tibete, retirando poder aos Lamas e nacionalizando os bens dos mosteiros. Mais de 6000 mosteiros budistas tibetanos foram encerrados durante a Revolução Cultural chinesa, por exemplo, e milhares de monges e monjas foram expulsos e mortos, na sua maioria.

Em 1965 Pequim decretou a autonomia do Tibete, mas com limites geográficos que não correspondem ao Tibete histórico, com todas as regiões de maioria étnica tibetana, divisão essa que foi uma das razões da revolta de 1959, que já se sublevara também contra esta divisão do povo e do seu país. Até 1976, durante o governo de Mao, as atrocidades foram inúmeras, milhares de tibetanos sucumbiram perante a opressão da Revolução Cultural (terminada em 1976). Apenas com o advento dos sucessores de Mao, mais reformistas, se mitigou um pouco a opressão sobre o povo e nação tibetanos. Em 1979 começaram-se mesmo algumas reformas económicas, não tanto políticas como no resto da China. 

Conversações secretas foram também mantidas entre o Dalai Lama e Pequim, até meados dos anos 80, embora sem resultados de maior, com os Chineses a romperem as mesmas. Todavia, os Tibetanos obtiveram o apoio do Congresso dos EUA e a concessão do Nobel da Paz ao Dalai Lama, em 1989, com o movimento tibetano a ganhar visibilidade internacional crescente e apoio da comunidade internacional, cada vez mais crítica da soberania de Pequim no "Teto do Mundo". 

Os Lamas voltaram a ter liberdade religiosa no Tibete, mas só se não pusessem em causa o domínio chinês no país. Os nacionalistas tibetanos reiniciaram a luta contra Pequim, com os confrontos étnicos violentos a surgirem, com a crescente população chinesa do país, desde 1987. Em 1989 faleceu o Panchen Lama, apoiado por Pequim, criando-se o problema da sua sucessão. Pequim, apesar de ateia, apoiou o reconhecimento oficial de uma reincarnação do Panchen Lama, descobrindo-a no Tibete "chinês", na pessoa de um menino criado em Pequim, chamado Gyancain Norbu, enquanto o Dalai Lama no exílio escolheu Gedhun Choeky Nyima, que vive no Tibete sob falsa identidade mas controlado pelos Chineses. 

A soberania chinesa no Tibete prossegue, nenhum país reconhece o governo no exílio do Dalai Lama, em Dharamsala, na Índia, além de se reconhecer atualmente a melhoria das condições de vida dos Tibetanos sob administração chinesa. A cultura tradicional tibetana sofreu um forte desgaste com a Revolução Cultural, muito se perdeu, a imigração chinesa é crescente, o sentimento nacionalista mais aguerrido vai-se confinando a certos grupos isolados e a uma ou outra região remota. 

O Dalai Lama é acusado de querer desestabilizar a China e a sua pujante economia, bem como a "pax tibetana" chinesa. O Ocidente apoia a causa tibetana e o Dalai Lama, mais espiritualmente do que política ou militarmente, com receio do poder da China e da reação de Pequim, principalmente da sua ala conservadora - que exige mais opressão no Tibete e recusa de negociar com os exilados. Desde 1999, ano da integração definitiva de Macau na China, depois de Hong Kong (1997), concedeu-se plena autonomia ao governo de Lhassa em todas as matérias menos em questões de relações internacionais e de defesa, o que, a par das transformações económicas e desenvolvimento do país, isola e diminui, no Tibete como no resto do mundo, a posição do Dalai Lama, por oposição à melhoria da de Pequim.
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