Reforma Protestante

A Reforma dita protestante teve diversos precursores, os mais importantes dos quais foram o inglês Wycliffe e o boémio Huss, nos séculos XIV e XV, mas a figura determinante do movimento reformista é sem dúvida a de Martinho Lutero (1483-1546), ao qual se juntaram numerosos outros teólogos e pensadores, em toda a Europa.
O ano de 1517 marca o início da Reforma protestante, com a afixação das 95 Teses do frade agostinho alemão Martinho Lutero (1483-1546), em Vitemberga. Apresentado na véspera do Dia de Todos os Santos, altura em que eram pagas as indulgências, este texto põe em causa vários pilares da Igreja romana, como a existência do Purgatório, o celibato dos padres, o culto da Virgem e dos santos e a autoridade de Roma, entre outros pontos considerados fundamentais. Estas ideias não eram de todo irreconciliáveis com a Igreja romana. Contudo, a intransigência de Roma acabou por condenar Lutero através da bula Exsurge Domine (1520), levando-o a separar-se definitivamente da Igreja romana e a procurar o seu próprio caminho, expresso nas suas três obras fundamentais: À Nobreza Cristã, Do Cativeiro de Babilónia e Da Liberdade do Cristão.
O movimento luterano vai instalar-se numa Alemanha sedenta de reformas, onde as rivalidades políticas e sociais se insurgiam contra o poder de Roma. Lutero ganha assim a admiração dos humanistas alemães, como Ulrich von Hutten. Consegue também a simpatia de alguns príncipes, vindo a refugiar-se inclusivamente no castelo de Wartburg, em 1521, sob a proteção do eleitor da Saxónia. Aí empreendeu uma das suas tarefas mais marcantes, a tradução da Bíblia para alemão, editada em 1534. O avanço das ideias de Lutero conduziria a movimentos mais radicais, como o de Vitemberga, liderado pelo seu discípulo Karlstadt, o dos "padres cavaleiros" no Sul da Alemanha, à frente do qual estava Ulrich Zwingli (1484-1531), autor do primeiro programa definido da reforma teológica alemã, ou a Guerra dos Camponeses, em 1524-1525. Perante estas ações extremas, Lutero tomaria o partido dos senhores, levando a que os príncipes do Norte e do Centro da Alemanha aquiescessem aos ideais propostos por Lutero, enfrentando desta forma o poder do clero, que é desapossado dos seus bens. Alberto de Brandenburgo, em 1525, nacionalizou os bens da ordem dos Cavaleiros Teutónicos, dando origem ao futuro Estado da Prússia. Assim, começaram a surgir por todo o território alemão as igrejas ligadas ao Estado, fomentadas pelos príncipes e com uma doutrina e liturgia escritas por Lutero.
Ao serem protegidas pelos soberanos, as ideias de Lutero vão confundir-se com a luta política travada contra o poder do império dos Habsburgos, levando Carlos V a querer impor o catolicismo novamente. Os príncipes luteranos, já em grande número, opõem-se vivamente, levantando um "protesto" contra as decisões romanas durante a Dieta de Spire (1529). Daqui advém a expressão católica "protestantismo", pela qual ficaram conhecidos os movimentos que se opõem à Igreja Católica Romana (designação tridentina). Estas lutas terminaram em 1555 com a Paz de Habsburgo, que determinava a liberdade de os príncipes escolherem a sua religião (o príncipe cujus regio ejus religio).
Paralelamente ao movimento reformista alemão, a Europa por sua vez vai também conhecendo o teor da reforma protestante luterana, que se difunde pelos países escandinavos, pela Prússia e países bálticos. Ao mesmo tempo, as ideias de oposição aos dogmas da Igreja romana vão despertando outras consciências e suscitando novas correntes reformistas, como é o caso do calvinismo, cujo mentor foi o teólogo francês João Calvino (1509-1564). Depois de aceitar as doutrinas de Lutero, este professor de Teologia é forçado a deixar Paris, em 1533, refugiando-se em Basileia, onde publica o texto elementar do calvinismo, Institution de la Religion Chrétienne (1536), partindo em seguida para Genebra. Aqui virá a ser responsável pelo centro de teologia e pela implantação do calvinismo, que depois se espalha pela Suíça, Países Baixos e França, atingindo também o Norte da Escócia.
Em Inglaterra, a Reforma chega através de um conflito de Direito entre a Igreja de Roma e a coroa, então nas mãos de Henrique VIII (1491-1547). Este rei pretendia divorciar-se de Catarina de Aragão, para poder desposar Ana Bolena. Como o Papa Clemente VII não lhe anulou o casamento, Henrique VIII cortou relações com a Santa Sé, autoproclamando-se chefe da Igreja de Inglaterra. Após alguns reveses, a Igreja anglicana, com alguma simpatia pelo calvinismo (embora mitigado), será definitivamente oficializada por Isabel I.
Assim, uma parte significativa da Europa, o Norte, principalmente, adere aos ideais reformistas, opondo-se energicamente à Igreja fiel a Roma.
Em comum, todas estas correntes têm a rejeição da universalidade da igreja (não há, na corrente "protestante", o equivalente ao Papa de Roma) e o direito de cada fiel fazer a sua interpretação pessoal da palavra divina. Daí decorre a rejeição da confissão e de outras práticas em que o sacerdote é o intermediário entre o fiel e o seu deus (ou seja, o sacerdócio universal dos crentes), e a necessidade de ler os textos sagrados (veículo fundamental da revelação divina) na língua do país, o que só é possível por meio de traduções (neste campo, foi também Lutero um pioneiro).
Estas ideias tiveram sucesso nas regiões onde o poder secular desejava fazer frente ao poder da Igreja, aliando príncipes contra o poder eclesiástico. Por outro lado, os soberanos católicos unem-se para travar o avanço protestante com a Reforma Católica, que culmina com as diretrizes emanadas do Concílio de Trento (1545 a 1563). Contudo, o manto que Roma estendia sobre o Ocidente europeu ficou definitivamente retalhado, iniciando-se uma época de pluralismo religioso, doloroso e sangrento.
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