República Imperial: as Províncias Unidas (1595-1796)

O desentendimento político dos Países Baixos com a Espanha no século XVI coincidiu com a eclosão da revolta protestante contra a Igreja Católica Romana, o credo de estado dos espanhóis. O calvinismo, um movimento protestante rigoroso lançado por João Calvino, muito rapidamente foi ganhando terreno durante este período, à medida que os seus adeptos estruturavam uma Igreja forte preparada para contestar o poder da Igreja Católica, em especial o da Inquisição.
Este movimento de contestação da Igreja Católica evoluiu para motins em 1566, quando manifestantes protestantes nos Países Baixos espanhóis atacaram e destruíram imagens de santos expostas em igrejas católicas. Em resposta a estas agressões, o rei Filipe II de Espanha enviou para a Holanda tropas comandadas por Fernando Alvarez de Toledo, o famoso duque de Alba.
A excessiva dureza das medidas repressivas do duque de Alba e a atuação da Inquisição geraram uma revolta nos Países Baixos, liderada por Guilherme I, o Silencioso, príncipe de Orange, um dos mais influentes nobres nesta região. Como de início a sua ação não teve os efeitos desejados, o duque espanhol concentrou os seus esforços no Norte. Em 1572, quando os "Pedintes do Mar", os aliados navais de Guilherme I, tomaram o porto holandês de Brielle, a situação começou a ser mais favorável aos revoltosos, que se apoderaram de muitas cidades do Norte a partir das quais preparavam a revolta.
Apesar deste novo alento, Guilherme não conseguiu aguentar a contraofensiva espanhola, comandada por Alexandre Farnese.
Mas os revoltosos não desistiram. Logo em 1579, formaram a União de Utrecht, uma aliança antiespanhola que congregava todos os territórios do Norte dos Países Baixos e alguns do Sul. Esta aliança, para além das suas condicionantes políticas, significou a divisão dos Países Baixos entre os territórios protestantes do Norte e os territórios predominantemente católicos do Sul, que depois iriam dar origem, respetivamente, à Holanda (que não deixou de ser uma forte presença católica) e à Bélgica.
Em 1581, os territórios das províncias holandesas dentro da União de Utrecht proclamaram a sua independência da Espanha. Mas a luta contra a Espanha não estava ainda terminada. Pelo contrário, os territórios holandeses sofreram um duro golpe quando Guilherme I foi assassinado em 1584.
No ano seguinte, a Espanha reconquistou a quase totalidade da região Sul dos novos Países Baixos, onde se incluía o porto de Antuérpia. Apesar de o cenário ser pouco auspicioso, os resultados do conflito mudaram a favor dos holandeses.
As tropas inglesas vieram então em seu auxílio entre 1585 e 1587. Em 1588 a frota inglesa destruiu a Armada Invencível espanhola, no Canal da Mancha, provocando um forte golpe que abalou o moral dos espanhóis. Abria-se o caminho para um movimento amplo contra a Espanha, com grandes possibilidades de ser bem sucedido.
Em 1600, as tropas espanholas tinham já saído da totalidade do território das sete províncias, da União de Utrecht. E entre 1609 e 1621, foram negociadas as tréguas, que finalizariam este conflito entre a Espanha e a Holanda. Todavia, a guerra continuou até 1648, o ano em que os espanhóis assinaram o Tratado de Münster, pelo qual reconheciam a soberania da República Holandesa das Províncias Unidas. A partir daqui, a Holanda afirmava-se como uma grande potência republicana entre as monarquias europeias.
O século XVII não foi apenas marcante por ter trazido a independência da Holanda: este século abriu também as portas a uma fantástica era de prosperidade económica que possibilitou um novo fulgor na criação artística. De facto, este foi o século de ouro da arte holandesa, onde se destacaram, entre muitos outros, os pintores Rembrandt van Rijn e Jan Vermeer.
Na primeira metade de Seiscentos, a Holanda era já a maior potência comercial e marítima de toda a Europa e Amesterdão o seu centro financeiro.
No início do século XVII, a Holanda organizava a primeira de muitas expedições mercantis que levaram os seus rápidos navios aos continentes mais longínquos. Essa primeira viagem foi levada a cabo por três embarcações, que partiram do porto de Amesterdão para atingir a ilha de Java, na atual Indonésia.
Estas viagens de exploração comercial e geográfica permitiram a aquisição e o estabelecimento de centros de comércio na África meridional, principalmente na Ásia Oriental e no continente americano, isto é, nos lugares até então ocupados pelas potências ibéricas, obrigadas que foram a ceder perante o poderio do novo concorrente.
Em 1602, o Parlamento holandês assegurou à Companhia das Índias Orientais o monopólio do comércio com todos os países a leste do Cabo da Boa Esperança, em África, e a oeste do Estreito de Magalhães, na América do Sul. Este documento conferia igualmente muitos poderes soberanos à Companhia monopolista, tais como o direito de fazer guerra e decidir a paz. A Companhia estabeleceu-se num primeiro momento nas Molucas, as "Ilhas das Especiarias", portuguesas, para depois se mudar para Java ocidental, onde Batávia, a atual capital da Indonésia, Jacarta, assumiu o lugar de centro das empresas da companhia.
Em 1621, fundava-se a Companhia da Índias Ocidentais, que conduziu ao estabelecimento de colónias nas Caraíbas, no Brasil e na América do Norte. Com menor sucesso do que a sua congénere oriental, a Companhia contribuiu, no entanto, para alicerçar o poderio mercantil das Províncias Unidas e criar bases de segurança e controlo do Atlântico, fulcral para a navegação para Oriente. No século XVIII, é a vez de os holandeses sentirem os efeitos de uma concorrência eficaz. A Inglaterra, que desde meados do século XVII começava a emergir no panorama marítimo internacional, torna-se, graças a uma política sistemática de desenvolvimento da sua marinha e ao crescimento da sua burguesia, a maior potência mercantil do mundo de então. Ocupou territórios em todos os continentes e relegou os holandeses para uma posição secundária. Amesterdão perdeu para Londres. Iniciava-se uma nova fase da evolução da economia mundial.
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