Respostas à Crise na Europa: Fascismos e Tentativas de "Frente Popular" (1922-1939)

Os sistemas políticos democráticos, triunfantes no início do século XX, foram muito abalados com a crise do período pós Primeira Guerra Mundial, que suscitou o aparecimento de um grande número de adeptos de ideologias totalitárias, fascistas ou comunistas. O programa político e económico liberal não se mostrara à altura de resolver as questões mais prementes do seu tempo, de modo que abriu caminho a novas ideologias que traziam uma nova confiança às classes médias e ao operariado desiludido com o liberalismo.

Enquanto o operariado aderia às ideologias socialistas e comunistas, promissoras de um futuro com melhores condições de vida, a burguesia aderia às ideologias fascistas, temendo uma onda de agitação social e o crescimento do bolchevismo.

O fascismo propunha uma nova doutrina social, económica e política, diferente do liberalismo, que rejeita o parlamentarismo, o pluripartidarismo, bem como a democracia, considerados elementos perturbadores da estabilidade política e nacional. Propõe um forte combate ao comunismo e ao socialismo, ideologias tidas como opositoras ao nacionalismo, e não apresenta qualquer respeito pelos direitos individuais sacrificados ao interesse da nação e do Estado. O nacionalismo é um sentimento enfatizado pelo fascismo, que o desperta através da sobrevalorização de uma gloriosa época passada e enaltecimento das obras do presente.

A unidade do Estado é uma prioridade deste sistema político, e para que ela aconteça todos os poderes deverão estar concentrados num líder da nação ao qual todos devem obedecer e respeitar; adota, portanto, um modelo corporativista, que melhor serve esta ideologia procurando anular conflitos de classe, e promove o recurso à violência para atingir os seus fins. Cria, para esse efeito, milícias armadas, dando uma especial atenção à preparação física e às paradas e desfiles militares consideradas um dos melhores meios de despertar o entusiasmo das populações.

Este era, em suma, o programa fascista, que num curto espaço de tempo ganhou muitos adeptos em todas as classes sociais de quase todos os países da Europa, onde ainda recentemente haviam sido instituídos regimes liberais.

Em Itália, o fascismo chegou ao poder em 1922, através do Partido Nacional Fascista, de Benito Mussolini. Esta organização virá a exercer uma grande influência na formação do Partido Nacional Socialista alemão, que em 1932, liderado por Adolf Hitler, chega ao poder na Alemanha. Esta ideologia fascista foi bem aceite na Itália, um país que atravessava uma crise económica e social e ansiava repetir os sucessos de outros tempos, nomeadamente a tentativa de restauração da grandeza do Império Romano. Na Alemanha, o fascismo, sob a forma de nazismo, trazia uma nova esperança para uma população humilhada pelo Tratado de Versalhes (1919), e confrontada com graves problemas como o aumento do desemprego e da inflação.

Assim, o partido nazi, apoiado pelos grandes industriais (como os Krupp, do aço), agradava tanto ao operariado como à classe burguesa, e crescia de dia para dia através de uma forte campanha propagandística nos meios de comunicação social e através da organização de manifestações de rua onde era exaltado o nacionalismo alemão, baseado numa eventual superioridade da pretensa raça "ariana" em que se enquadravam os alemães.

Na Itália, Mussolini concebe o Estado totalitário como o garante da nação, dentro de uma doutrina fascista profundamente nacionalista, que exalta a raça italiana pela lembrança de um passado glorioso (o Império Romano) e pela dominação de povos tidos como inferiores através do imperialismo.

Esta doutrina - porque, no fundo, em ambos os casos se trata da mesma - defende a diferenciação de raças superiores e inferiores: é portanto racista. Dentro do mesmo povo considera também haver imensas desigualdades, exaltando a superioridade dos militares e dos militantes do partido, para além da inferioridade da mulher, sobretudo perante a morte. A elite, que se afirma ela própria um grupo superior na sociedade, não precisa de ser eleita para governar, o que não justifica a existência de partidos e de eleições. De entre todos, o chefe é o indivíduo mais qualificado na sociedade, ao qual a população deverá prestar culto.

O Estado fascista corporativista sobrepõe aos direitos individuais os interesses do Estado, ou seja, valores como a liberdade e o individualismo estão subordinados ao poder do Estado, que cria uma sociedade regida por ideais fascistas veiculados pela propaganda e por uma educação controlada. Para atingir os seus objetivos, permite até a utilização de meios violentos e repressivos em nome do interesse coletivo.

A violência do fascismo no Norte de Itália alastrou a todo o país em 1921, apesar dos partidos de esquerda tentarem, em vão, conter este crescimento. A partir de então, o partido fascista assume-se como a única força política capaz de manter a ordem. Mussolini tira partido do prestígio ganho e faz as suas milícias, os "camisas negras", marcharem sobre Roma a 30 de outubro de 1922.

O líder fascista precipita a queda do governo e coage o rei a entregar-lhe o poder e, nas eleições de 1924, obtém mesmo a maioria absoluta, através de meios ilícitos (como a intimidação, pela violência, dos adversários políticos, o assalto e destruição de sedes dos partidos rivais, etc.) e lança-se na estruturação de um plano governativo anti-democrático, no qual todas as instituições e todas as camadas sociais passam a estar submetidas ao controlo apertado do Estado.

Mussolini cria a OVRA (Organização de Vigilância e Repressão do Antifascismo), a MVSN (Milícia Voluntária para a Segurança Nacional), recruta nas fileiras do partido os funcionários do Estado e faz com que os sindicatos e corporações sejam controlados por esse mesmo Estado.

Com a resolução do problema da tensão social, passa-se então a tentar resolver o desemprego através da implementação de um programa de obras públicas e do encorajamento do aumento da produtividade agrícola dentro de uma economia protecionista voltada para a autossuficiência. O relativo sucesso deste programa chama mais adeptos para o partido fascista. No plano da política externa o grande objetivo deste regime é a restauração do antigo império, agora inserido numa nova perspetiva imperialista e mais transcontinental, pelo alargamento da sua rede de influências. Por este motivo, Mussolini participou na Guerra Civil Espanhola, ao lado de Franco e dos seus nacionalistas e conquistou a Etiópia em 1936.

Na Alemanha, o partido nazi de Adolf Hitler começava a crescer em 1920, pois agradava aos burgueses receosos do desenvolvimento do comunismo, satisfazendo igualmente um vasto grupo de trabalhadores que nele depositavam grande confiança. O partido tentava aliciar mais adeptos através da propaganda e de demonstrações das suas milícias.

Em 1928, o partido obtém uma votação ainda não satisfatória nas eleições, na sequência das quais é intensificado o combate às forças da oposição e aos judeus, acompanhado de manifestações do seu poder, as quais se mostram eficazes nas eleições de 1932, em que os resultados lhes são bastante mais favoráveis. Embora Hitler não tenha ainda alcançado a maioria absoluta, exige o cargo de chanceler (equivalente a primeiro-ministro, mas com mais poderes). Nas novas eleições, convocadas como líder do partido vencedor, Hitler é assim nomeado chanceler em janeiro de 1933. Logo de seguida dissolve o parlamento e convoca novas eleições, onde consegue 44% de votos. Com o apoio do Partido Católico, Hitler é empossado de todos os poderes que lhe permitem ser simultaneamente chanceler e presidente e criar um Estado totalitário sem partidos nem sindicatos, onde a oposição é perseguida e exterminada.

Hitler impõe uma ditadura sustentada pela Gestapo, a polícia política, e as emergentes e violentas SS, as milícias armadas do partido. Tal como Mussolini, combate o desemprego pelo incremento das obras públicas, mas também pelo reforço da política de armamento e pelo aumento do funcionalismo; preocupa-se também com o fomento do crescimento da produtividade agrícola e industrial.

Os estados fascistas tinham um forte apoio das massas populares desde cedo levadas a assimilar e respeitar os valores incutidos pela propaganda e pela instrução escolar ministrados por organizações educativas que exaltavam o nacionalismo e o culto do chefe e da força. Assim, na Itália existiam "Os filhos da Loba", para educação das crianças dos 4 aos 8 anos, os "Balilas", para miúdos dos 8 aos 14 anos de idade, os "Vanguardistas", dos 14 aos 18, e a "Juventude Fascista", para jovens maiores de 18 anos. Na Alemanha, a grande organização juvenil era a "Juventude Hitleriana". Em Portugal havia a "Mocidade Portuguesa".

Apesar do sucesso de forças políticas radicais antidemocráticas no período do pós-guerra, mantiveram-se na Europa regimes parlamentares herdeiros da tradição democrática europeia, onde colaboravam as alas da direita e da esquerda, que alternavam no poder e afastavam a ameaça dos regimes autoritários.

Na França, o regime de Mussolini era bem visto por uma grande percentagem da população, enquanto a fação de esquerda se sentia atraída pelo modelo soviético. As alas mais conservadoras atacam o regime democrático. Na Bélgica, havia alguns adeptos do autoritarismo como Léon Degrelle; mas em Inglaterra, Oswald Mosley, o líder fascista, não tinha muitos seguidores. Só o Partido Trabalhista tinha alguma força, embora o rotativismo parlamentar mantivesse o equilíbrio político da nação.

O ataque aos regimes democráticos foi mais forte com a crise de 1929, que gerou um movimento de contestação por parte das forças mais conservadoras, exigindo a reunião de forças dos partidos democráticos. Em França, a democracia prevaleceu, apesar das ameaças fascistas e da debilidade dos governos. O Bloco Nacional, uma coligação entre os radicais e a direita moderada, governou de 1919 a 1923, ano em que os radicais se retiraram da coligação; em 1924, o vencedor foi o Cartel das Esquerdas, composto por radicais e socialistas, que caiu em 1925, sendo depois substituído pela União Nacional em 1926, que trazia outra vez ao poder os radicais e a direita moderada. Em 1932, a direita saiu com nova vitória do Cartel das Esquerdas para voltar em 1934 com a União Nacional.

Em 1936, surgia a Frente Popular, composta pelos partidos Radical, Socialista e Comunista que, como pontos principais do seu programa, apresentava a defesa da paz, do pão e da liberdade. O triunfo nas eleições de 1936, permitiu a formação de um governo socialista chefiado por Léon Blum no qual, no entanto, não participavam os comunistas.

Esta vitória gerou uma onda de greves, de ocupações de fábricas e reivindicações salariais, que o governo tentou acalmar. Todavia, as greves mantiveram-se até intervir o Partido Comunista que não quisera entrar no governo. Esta instabilidade, no entanto, forçou Léon Blum a avançar com medidas que respondessem às exigências do operariado.

Em junho de 1937, Léon Blum demitia-se com o agravamento da situação social e política e com a agitação entre os partidos; voltaria ao poder em março de 1938, depois da queda do governo radical de Chautemps para de novo, pouco depois, se voltar a afastar da política.
Édouard Daladier, do partido radical, formou governo com o apoio da direita, facto que fez aumentar as tensões sociais e o poder da extrema direita.

Na Inglaterra, a extrema direita não tem qualquer expressão, e em 1935 o país entra num clima de desenvolvimento económico, que trouxe estabilidade política. Em Espanha, a queda da ditadura de Primo de Rivera (1923-1930) e da monarquia em 1931, instaurou um regime parlamentar democrático composto por uma coligação de republicanos, socialistas, e nacionalistas catalães. Uma vez instalados no poder, os republicanos desencadearam grandes reformas, que por sua vez suscitaram a crítica e consequente união dos conservadores, para além da reação da direita, que venceu as eleições de 1933. A esquerda procurou reagir e nas eleições de 1936 surge numa coligação, a Frente Popular, que acaba por vencer, vindo a formar governo sem os comunistas.

Este governo retomou as reformas do primeiro governo republicano, e, entre outras medidas, decretou a separação da Igreja e do Estado. O descontentamento das forças de direita, coligadas na Frente Nacional, originou um novo clima de grave agitação social e viria a ser o facto que despoletou a dramática guerra civil Espanhola entre 1936 e 1939.


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