retórica literário-cultural

Refere-se à teoria das figuras como fundamento do estilo. Relativamente à retórica antiga, trata-se de uma retórica da elocutio, reduzida nas suas partes de natureza lógica, a inventio e a dispositio. Monumento e expressão máxima desta retórica é a obra de Pierre Fontanier, Les Figures du Discours, publicada entre 1821 e 1830 e referida por G. Genette como A Retórica das Figuras e pelo mesmo caracterizada como uma das obras-mestras da retórica clássica e a sua forma mais representativa e perfeita.
É uma retórica do funcionalismo régio, do século XVI ao século XIX, e público, a partir dessa data integrada na ciência civil, representando a mais elevada formação do Homem. Com efeito, ela vai estar na origem de uma das maiores revoluções culturais do Ocidente: a cultura literário-pedagógico-didática, que no século XX vai ser alargada à massa da população. Nela se forma o literato-intelectual-escritor, o qual, abraçando a língua nacional, quer ser ouvido por reis e súbditos, a quem pretende agradar instruindo. Dela vai nascer essa nova realidade, mais tarde apelidada de literatura, seja sob a forma de ficção, seja sob a forma de relato histórico, seja, ainda, sob essa forma estranha, na época, de ensaio, como foi o caso de Montaigne.
Esta retórica literário-cultural situa-se já não na esfera do indivíduo singular, ator linguístico-retórico, mas da cultura, que passa a prestar um relevante serviço à política. Na origem desta mudança estão três factos:

1) a deslocação da cultura das universidades e mosteiros para a sociedade civil - cortes, palácios comunais, residências burguesas, ateliers artesanais;

2) vulgarização da língua nacional por filósofos, escritores, historiadores e sábios;

3) a rápida expansão da imprensa.

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