Revoltas do Século XVII

Durante a primeira metade do século XVII, o meio rural europeu foi assolado por uma vaga de tumultos. Os camponeses insurgiram-se de forma viva contra as imposições fiscais, cada vez mais opressoras, uma vez que a conjuntura económica assim os obrigava em muitos locais.
Em Inglaterra, o problema não estava tão ligado às crises de subsistência, mas às reformas na agricultura. A política de enclosure era tida como uma ameaça pelos mais pobres, que trabalhavam os terrenos comunais, agora forçados a abandonar o cultivo de cereais para se dedicar à criação de carneiros. Assim, os levantamentos dão-se contra os fidalgos rurais ou contra a venda das florestas reais para novos arroteamentos.
Mais violentas foram as revoltas francesas, as eternas jacqueries, que, embora sem ligação entre si, assolaram diversos pontos do território franco (em 1630 Lanturlus, na Borgonha, e Cascavéous na Provença; em 1636 os Corquants, entre o Loire e o Garona; em 1639 os Nu-Pieds na Normandia; em 1643-1644 no Poitou, no Auvergne e noutras regiões). Estes movimentos partiram de uma coligação entre as forças tradicionais e as povoações rurais contra o poder central e os seus representantes. A estes levantamentos seguiu-se a Fronda (1648-1653), que pôs em risco a vitória na guerra franco-espanhola e a independência da monarquia francesa. Esta violenta crise foi feita com a insurreição da aristocracia e dos altos funcionários, apoiados pelos populares. De facto, estes movimentos eram quase uma revolução, apoiados ideologicamente por um programa de reformas políticas. A monarquia acabou por sair reforçada e o Parlamento ficou destituído das suas funções, restando-lhe apenas a administração da justiça em nome do rei. O outro grande foco de revoltas foi o império dos Habsburgos, onde por toda a parte se sentiu o descontentamento contra a política do duque de Olivares, ministro de Filipe IV. Na Catalunha, em 1640, a revolta deu-se devido ao comportamento do Exército enviado de Madrid, constituído por soldados de diversas nacionalidades. Os camponeses avançaram sobre Barcelona, mataram o vice-rei, o conde de Santa Coloma, e ofereceram a Luís XIII de França o título de conde de Barcelona, pedindo-lhe apenas a autonomia.
Quase simultaneamente deu-se a revolta de Portugal, que se insurge contra a fusão administrativa pretendida pelo duque de Olivares. Os revoltosos proclamaram rei D. João (IV), duque de Bragança, e expulsaram do seu território a vice-rainha, Margarida de Saboia, muito embora a contenda ainda se tenha prolongado por mais 25 anos (Guerras da Restauração), até à aceitação da independência por parte de Castela (1665).
Em 1646, a revolta eclodiu em Nápoles, que também estava integrada no império dos Habsburgos por via do domínio aí exercido por Espanha. Aqui as forças populares, ainda que apoiadas pela aristocracia napolitana, não conseguiram fazer frente ao Exército espanhol, acabando por ter que continuar a suportar os pesados tributos.
No Leste, a Rússia foi igualmente atingida por diversas perturbações, que acabaram por se tornar graves, na medida em que punham em questão a sua própria independência. A partir de 1603, a Rússia viveu o problema do falso Dimitri, quando o povo e os militares, e depois os boiardos, decidem apoiar o homem que se dizia filho de Ivan, o Terrível, que chegou mesmo a entrar em Moscovo, onde depois foi morto. No resto do país, apareceram outros falsos Dimitris, que impulsionavam a fúria do povo contra Basílio Chuiski, que se fizera eleger czar. A crise só seria sanada quando uma assembleia elegeu para czar Miguel Romanov, pondo assim fim ao poder polaco na Rússia.
Muitas destas revoluções tiveram subjacentes motivações políticas ou até religiosas, mas a conjuntura económica do século é, sem dúvida, um fator determinante. Por um lado, a Europa vivia um período de instabilidade monetária devido à falta de prata, o material cunhável mais corrente (as explorações americanas haviam diminuído), o que conduzia a uma alta de preços. Por outro lado, os preços também subiam devido a sucessivos maus anos agrícolas provocados por profundas alterações climáticas. Ao mesmo tempo, os grandes impérios, francês e espanhol, envolveram-se em confrontos, levando a um aumento de impostos e agravando ainda mais a situação das classes empobrecidas e famintas.
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