Revoluções Mundiais (1750-1800)

Em meados do século XVIII, principalmente entre 1750 e 1800, surgem por todo o Mundo inúmeras revoluções. Um novo período de agitações sociopolíticas tem o seu início no Ocidente, agitações estas atribuídas à proliferação das ideias que marcaram o Iluminismo. Estas ideias surgiram dos novos conhecimentos científicos do século XVII que levaram a uma nova esperança na razão e no progresso, para além de terem conduzido à negação da autoridade e à declaração dos Direitos do Homem, bem patente na declaração de Rousseau.
O surgir destas novas ideias levou os monarcas a tomadas de posição. No final do século XVII, começaram a concentrar o poder nas suas mãos e a governar por meio de burocratas escolhidos por si.
Os governantes iluministas, centralizadores, como é o caso de D. José II, da Áustria, e de Frederico II, da Prússia, basearam os seus projetos nas ideias dos filósofos racionalistas, para quem governar era uma ciência que levava à plena satisfação das necessidades. Contudo, este centralismo viria a ser combatido pela velha aristocracia, clero e burguesia, que se sentiam lesados com a centralização. Estas reivindicações, juntamente com o desejo de autonomia manifestado pelas províncias, deram origem a uma onda de revoluções. Este tipo de manifestação ocorria mais facilmente em zonas onde a aristocracia tinha o apoio das massas rurais. No entanto, há que salientar que na Europa de Leste os camponeses ainda permaneciam numa condição servil, o que tornava difícil revoltarem-se, apoiando os proprietários das terras, os homens que os oprimiam.
Por outro lado, tal como aconteceu no Leste, mais concretamente na Rússia, os camponeses não eram adeptos das inovações, tendo muitas vezes que entrar em lutas para defender o seu modo de vida. Foi o que aconteceu na Rússia, com a revolta de Pugacheve na Hungria (contra D. José II).

A revolução a partir dos ideiais iluministas apareceu em primeiro lugar na América do Norte, quando os colonos recusaram ser tributados por um parlamento que estava em Londres e no qual não tinham representantes. Assim, em 1775, nas colónias inglesas deflagrou uma guerra com o objetivo da sua independência, a qual atraiu todas as classes. Foi a chamada Revolução Americana.
Outras revoltas e revoluções ocorreram neste período, em locais distintos e por razões diversas, como, por exemplo, em:
. 1755: Pascal Paoli (espécie de déspota esclarecido), general da Córsega, liderou grupos revoltosos contra o governo de Génova, estabelecendo um governo democrático e independente. Contudo, esta revolta foi esmagada pela França, que adquiriu, em 1768, a ilha à República de Génova.
. 1757: em Portugal, mais concretamente no Porto, iniciou-se um motim contra a criação da Companhia das Vinhas do Alto Douro.
. 1768: em Génova, deu-se a revolta dos cidadãos da classe média contra o domínio de algumas famílias nobres. Neste mesmo ano, na Ucrânia, verificou-se uma insurreição camponesa contra os nobres e judeus.
. 1770: surgiram sublevações contra os Turcos na Grécia.
. 1771: iniciou-se um movimento nacionalista e popular no Vietname, conhecido pela insurreição de Tây Son (rei) e dos seus apoiantes.
. 1773, no Sudoeste da Rússia, tribos asiáticas, camponeses e cossacos, sob a chefia do cossaco Pugatchev, revoltaram-se na zona do Volga e na região do Ural, mas os revoltosos foram vencidos, após a intervenção do exército russo em 1774.
. 1774: iniciaram-se as revoltas antimanchus na China.
. 1776: no Chile estalou uma revolta dos índios Mapuches.
. Entre 1779 e 1780: ocorreu a primeira guerra "cafre", isto é, os Negros oposeram-se à expansão dos Boeres.
. 1780: surgiram sublevações camponesas na Noruega, no Massachusetts, na Roménia, na Ucrânia e no Japão, entre outros locais, que visavam os especuladores e os mercadores. Ainda neste ano surgiram também, na Holanda, conturbações que deflagraram em revolução republicana. No Peru, eclodiu o movimento Tupac Amaru (1780-1782), considerado a maior revolução social da história ibero-americana.
. 1781: deu-se o massacre dos espanhóis pelos índios da Califórnia, ao mesmo tempo que surgiram movimentos antiespanhóis na Venezuela e na Colômbia.
. 1784: nos Países Baixos, travou-se uma luta pelo poder entre o governador, famílias da aristocracia que controlavam os Estados Gerais e o Partido Patriota das classes médias, que tinha como objetivo a democratização do governo.
. 1787: a Prússia derrotou o exército Patriota, pondo de novo o governador no poder. Também neste ano, nos Países Baixos austríacos, isto é, na atual Bélgica, iniciou-se uma revolta contra a política centralizadora de D. José II da Áustria, que levou à proclamação da República das Províncias Belgas Unidas, em 1790. Surgiram também lutas entre os aristocratas rebeldes e membros da classe média. D. José II da Aústria conquistou esta região em 1790.
Em 17 de setembro de 1787 surgiu a nova Constituição americana, que só entrou em vigor a 4 de março de 1789, que propunha organizar os três poderes segundo as ideias de Montesquieu e Locke, estabelecendo um regime presidencialista.
Em França, em 1787, iniciou-se uma fase pré-revolucionária que iria durar até 1789, ano em que se deu a Revolução Francesa, quando foram convocados os Estados Gerais por Luís XVI, com o intuito de resolver os problemas financeiros. Mudaram o nome para Assembleia Constituinte, que, mais tarde, proclamou os Direitos do Homem e emitiu a primeira Constituição em 1791. A Revolução, propriamente dita, estalou a 14 de julho de 1789, com tomada da Bastilha pelo povo.
No decurso desta revolução, deu-se a revolta dos camponeses e dos parisienses que derrubou o sistema feudal social e político e à qual se opôs Luís XVI. A sua tentativa de fuga levou à abolição da monarquia, em 1792. A partir desta data, a revolução tornou-se sanguinária e o terror atormentou todos os setores sociais. O rei e a rainha foram guilhotinados como traidores, em 1793. Foi eleita uma nova Assembleia, a Convenção, que deu início à terceira fase da Revolução. Neste período, foi decretada a República. Como consequência da execução dos monarcas, verificaram-se levantamentos em França, como a Revolta da Vendeia que procurou proclamar de novo a monarquia.
Entre setembro de 1793 e julho de 1794, os Jacobinos de "esquerda" assumiram o governo, dando início a um clima de terror.
A França foi ameaçada de invasão pela Áustria, o que contribui ainda mais para este reinado de terror. Robespierre iniciou a sua ditadura em 1794. Com a sua queda e execução, no mesmo ano, acabou o chamado período de terror.
Os Girondinos (partido maioritário e hostil à guerra revolucionária, mas adepto da guerra com outros países) assumiram de novo o poder e, em 1795, surgiu uma nova Constituição.
Sob a sua vigência, deu-se a quarta e última fase da Revolução Francesa: o Diretório. Após o governo fraco e corrupto do Diretório (1795-1799), que constituiu uma fase de transição entre o governo republicano e a fase napoleónica, Napoleão Bonaparte assumiu o poder após um golpe de Estado, conhecido como o "18 de brumário", que pôs termo ao processo revolucionário francês e deu início à época napoleónica.
. 1788-1789: deu-se uma conspiração antiportuguesa no Brasil.
. 1789: o sultão da Turquia, Selim III, iniciou as grandes reformas contra os tradicionalistas. Neste mesmo ano assistiu-se ao golpe de Estado real antinobiliárquico na Suécia, e, em Liège, os cidadãos da classe média, com o apoio dos camponeses e trabalhadores, expulsaram o príncipe-bispo e aboliram o sistema feudal. Em 1790, o bispo foi reposto no seu lugar pelos austríacos.
. 1790: os nobres da Hungria puseram de lado os éditos imperiais de D. José II e pediram maior independência para a Hungria dentro do império dos Ausburgos. Porém, ameaçados pelos distúrbios dos camponeses, acabaram por aliar-se à monarquia.
. 1791: na Polónia, o rei Estanislau II Poniatowski, apoiado pelos nobres, adotou a Constituição com o intuito de fortalecer e modernizar o governo. Porém, Catarina II da Rússia organizou uma contrarrevolução, apoiada por alguns nobres, para reestabelecer o antigo regime, invadindo a Polónia e dividindo-a com a Prússia. Uma tentativa de sublevação por parte da nobreza contra os invasores foi repelida sendo a Polónia partilhada entre a Rússia, Áustria e Prússia, deixando de existir como estado independente.
Ainda em 1791, no Haiti francês, deu-se a revolta dos escravos, que teve como resultado a ascensão do líder negro Toussaint L'Ouverture, que, em 1801, conseguiu conquistar o resto da ilha de S. Domingos aos espanhóis (parte oriental) assegurando a sua independência.
. 1792: Gustavo III, rei da Suécia, foi assassinado.
. 1793: na Córsega, Pascal Paoli desencadeou uma segunda tentativa revolucionária para conseguir a independência da França, que levou à ocupação britânica. A ascensão de Napoleão Bonaparte poria fim a este movimento separatista.
Na Sardenha, os habitantes da ilha exigiram a sua autonomia dentro dos limites do reino de Piemonte, em troca da expulsão dos invasores franceses. Esta só foi concedida em 1796, quando a ameaça francesa diminuiu.
Ainda em 1793 iniciou-se a repressão dos movimentos antimanchus na China que durou até 1802.
. 1795: deu-se a terceira partilha da Polónia.
. 1798: ocorreu a revolta da União dos irlandeses adeptos da independência em relação à Inglaterra, a qual foi anulada pelo exército britânico.
. A partir de 1800: os movimentos revolucionários continuaram a registar-se um pouco por todo o Mundo. É de salientar a independência da América Latina, a partir de 1804, que se prolongaria até 1825.
Em resumo, pode-se dizer que, por um lado, a Revolução Francesa constituiu um acontecimento muito importante e decisivo na história europeia ou no processo revolucionário ocidental, embora tivesse influenciado povos como os do Haiti e as instituições e ideias em todo o mundo; e que, por outro, a Europa Ocidental e a América do Norte foram responsáveis por todo um processo revolucionário a nível mundial.
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