Romance da Rosa

O Romance da Rosa (Le Roman de la Rose), é uma obra-prima da poesia alegórica medieval francesa, composta, na sua totalidade, por 22 000 versos octossilábicos, e estruturada em duas partes distintas: a primeira, escrita entre 1230-1235, foi atribuída ao poeta francês Guillaume de Loris, que compôs 4058 versos, deixando a obra inacabada aquando da sua morte; a segunda, escrita quarenta anos mais tarde (entre 1270 e 1275), retomada pelo clérigo parisiense Jean de Meung que, através de 18 000 novos versos e inspirado na Arte de Amar de Ovídio e na filosofia de Alain de Lille, apresentou uma visão oposta à primeira parte da obra.
A primeira parte do Romance da Rosa apresenta os grandes princípios da "arte de amar" trovadoresca, enquanto aventura iniciática amorosa, e valoriza o sofrimento amoroso, na esperança de uma felicidade sempre adiada. A partir de um sonho alegórico vivido pelo próprio autor, este toma o papel de Amante (nome da personagem) e narra as etapas iniciais de um percurso amoroso pelo "Jardim do Amor". Introduzido no jardim, pelo Ócio, logo é trespassado de flechas, no coração, pelo Amor. Completamente apaixonado pela Rosa, que simboliza a jovem mulher por quem está apaixonado e que incarna o eterno feminino, o seu único objetivo é colhê-la. No entanto, a Rosa é protegida pelos Ódio, Velhice, Ciúme, Tristeza, entre outros sentimentos, qualidades e defeitos personificados, que se tornam no poema personagens adversas. A narração é interrompida numa altura em que o Amante, desesperado, é afastado da Rosa pelas muralhas do Castelo do Ciúme.
Nesta primeira versão, é feita uma abordagem do "fin'amor", que combina, através da alegoria, o código do amor cortês, nas suas delicadezas e subtilezas, com a poesia. O autor tentou mostrar que os sonhos não são mentiras ou fábulas e assegurou que os seus significados se tornam evidentes, quando, mais tarde, se refletem na vida. Convencido de que o bem e o mal dos sonhos se concretizavam na realidade, Guillaume de Loris quis partilhar um sonho dos seus 20 anos, contando-o em verso e intitulando-o Romance da Rosa, já que assim lho ordenava o amor. À amada, a quem dedicou os versos, por ser tão preciosa e tão digna, chamou-lhe Rosa.
Nesta segunda e última parte do Romance da Rosa, escrita por Jean de Meung, o Amante cerca a torre do Ciúme e, por fim, recolhe a Rosa.
Numa acesa crítica ao trabalho de Guillaume de Lorris, Jean de Meung apresenta um Amante que perdeu as ilusões do amor cortês e que acabou por colher a Rosa, numa cena de alguma obscenidade levemente disfarçada pelo autor. Na obra, as personagens são alegóricas, a Natureza clama pela fecundidade e pela procriação e questiona-se o destino e o livre arbítrio. Os conselhos cínicos substituem os temas do amor palaciano e são introduzidos temas contemporâneos, discursos científicos e filosóficos. Jean de Meung abordou a incontornável e mútua interligação entre as linguagens do amor, da teologia e da filosofia. Nesta versão, é ainda analisada a relação do homem com o amor e com a natureza, de uma forma didática.
Este poeta continuou o sonho alegórico de Guillaume de Lorris, mas utilizou-o como veículo de transmissão de informação sobre a vida e o pensamento medieval. O sucesso do Romance da Rosa e a consequente propagação da análise psicológica e erótica do amor ficaram a dever-se sobretudo à segunda parte da obra.
No século XV, Cristine de Pizan atacou o tom antifeminista de Jean de Meung, tornando-se na primeira disputa escrita da literatura francesa. Apesar das divergências, o poema foi muito popular e influenciou países como França e Inglaterra. Em 1532, apareceu a primeira tradução, em inglês, Romaunt of the Rose, fragmentada em relação ao original e que teve a participação do poeta inglês Geoffrey Chaucer (1340-1400).
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