São Vicente de Paulo

Sacerdote francês nascido a 24 de abril de 1581, em Pouy, Gasconha, São Vicente morreu a 27 de setembro de 1660, em Paris. De origem humilde, trabalhou no campo até aos 15 anos mas os seus pais conseguiram mandá-lo estudar, apesar das grandes dificuldades. Ordenado em 1600, obteve o bacharelato em Teologia em 1604, em Tolosa, e mais tarde veio a licenciar-se em Direito Canónico em Roma, em 1623. No regresso de uma viagem a Marselha, em 1605, foi capturado por piratas turcos, levado para Tunes e vendido como escravo. Conseguiu escapar em 1607 e, de volta a França, dirigiu-se ao vice-legado papal de Avinhão com quem seguiu para Roma para continuar os seus estudos. Em 1609, foi encarregue de voltar a França numa missão secreta junto de Henrique IV e, como capelão, ficou ao serviço da rainha Margarida de Valois, que lhe concedeu a pequena abadia de São Leonardo-de-Chaume. Mais tarde ficou encarregado da paróquia de Clichy, perto de Paris, e apenas alguns meses depois entrou ao serviço dos Gondi, uma ilustre família de França, para educar os filhos de Phillipe-Emmanuel de Gondi. Tornando-se diretor espiritual de Mme. de Gondi, com o seu apoio começou a fundar missões nos seus domínios. Mais tarde, deixou os Gondi e foi nomeado pároco de Chatillon-les-Dombes (Bresse) onde converteu vários protestantes e fundou a sua primeira confraria de caridade para assistência aos pobres, que seria a génese das Conferências de São Vicente de Paulo. Chamado pelos Gondi, voltou para esta família em 1617 e retomou as missões junto dos camponeses. Seguindo o seu exemplo, alguns padres de Paris juntaram-se-lhe e junto de quase todas estas missões foram fundadas várias conferências de caridade para alívio dos pobres. Para além dos pobres, a missão de São Vicente foi também dirigida aos condenados às galés que estavam sob as ordens de Gondi, general das galés de França. Assistido por um padre, São Vicente começou a visitar os condenados às galés de Paris, que viviam em condições físicas e morais degradantes em masmorras da cidade esperando o embarque, prestando-lhes ajuda e serviços considerados repulsivos. Desta forma, São Vicente conquistou os corações dos presos e converteu muitos deles, interessando pela sua sorte muitas outras pessoas que os passaram a visitar. S. Vicente fundou um hospital e foi nomeado por Luís XIII oficial real das galés. Aproveitando este título, São Vicente visitou as galés de Marselha levando cuidados aos condenados e fundando missões tanto em Marselha como em Bordéus. O êxito destas missões e o apoio de Mme. de Gondi ajudaram São Vicente a fundar o seu instituto religioso de formação de padres votados à evangelização de camponeses, a Congregação dos Padres da Missão, ou Lazarista, em 1625. Antes da Revolução a Congregação dirigia em França um total de cerca de 60 seminários, um terço do número total em França.
As conferências eclesiásticas organizadas por São Vicente, todas as semanas, à terça-feira, daí chamarem-se de "Mardi", desde 1633, em Saint-Lazare, completaram o trabalho desenvolvido nos seminários, juntando todos os padres vicentinos para discutir as virtudes e as funções do seu sacerdócio. Às conferências seguiram-se os retiros abertos para padres e leigos, estimando-se que nos últimos 25 anos de vida do santo tenham participado destes retiros mais de 20 000 pessoas. Estes retiros contribuíram para a propagação da mensagem cristã junto do povo apesar de representarem um grande sacrifício para a casa de Saint-Lazare, dado que nada era exigido aos visitantes. São Vicente de Paulo fundou também, ao mesmo tempo do seu instituto, as Filhas da Caridade, em 1633, com Santa Luísa de Marillac, uma instituição destinada a recrutar, formar e dirigir senhoras que queriam prestar ajuda aos pobres, e que foram distribuídas pelas diferentes paróquias. Quando o seu número cresceu muito foram agrupadas numa comunidade sob a direção de Mlle. Legras. A pedido do Arcebispo de Paris, São Vicente fundou as Senhoras da Caridade, também de ajuda aos pobres, reunindo mulheres piedosas, entre as quais cerca de 200 senhoras de classe elevada, para aprestar ajuda aos 20 000 a 25 000 pobres enfermos que todos os anos entravam no Hotel-Dieu e também para visitar as prisões. As senhoras de classe elevada ajudaram São Vicente a angariar grandes somas de dinheiro que eram distribuídas aos mais necessitados. Um dos trabalhos mais notáveis foi a recolha de crianças órfãs, umas deliberadamente mutiladas ou deformadas para atrair as esmolas, outras confinadas a asilos onde eram maltratadas ou deixadas a morrer à fome. As Senhoras da Caridade começaram por recolher doze crianças que levaram para uma casa especial confiada às Filhas da Caridade e a quatro enfermeiras. Alguns anos mais tarde já eram cerca de 4 000. Com a ajuda de generosos desconhecidos, São Vicente fundou o Hospício do Nome de Jesus para idosos de ambos os sexos e foi responsável pela realização de uma das maiores obras de caridade do século XVII, um asilo para abrigar cerca de 40 000 pobres subsidiado pelo rei e pelos nobres do reino.
A ação de São Vicente não se restringiu a Paris e estendeu-se a todos os locais do reino atingidos pela miséria, agravada pela Guerra dos Trinta Anos. Quando os apoios económicos começaram a fraquejar, São Vicente chegou a publicar um jornal periódico, chamado de Le Magasin Charitable que teve grande sucesso. São Vicente fundou ainda a "Sopa dos Pobres" nas províncias mais atingidas pela fome, uma prática que ainda se mantém nos nossos dias, sendo ele próprio o autor de instruções minuciosas sobre o conteúdo e a forma de preparação das sopas. Encorajou ainda a formação de associações para enterro dos mortos e limpeza do lixo que eram frequentes causas de peste. Trouxe para Paris cerca de 200 jovens mulheres e muitas crianças, retiradas à brutalidade dos soldados, que abrigou em vários conventos e em Saint-Lazare. Chegou ao ponto de fundar uma organização especial para ajudar a nobreza da Lorena, afetada pela guerra que tinha procurado refúgio na capital. Quando a paz se restabeleceu, a sua ajuda foi canalizada para os católicos irlandeses e ingleses que tinham fugido do seu país. Todos estes feitos de caridade tornaram São Vicente de Paulo muito popular tanto em Paris como na Corte, sendo recebido por Richelieu. O próprio rei Luís XIII quis ser assistido por São Vicente no seu leito de morte e ter-lhe-á dito que se a sua saúde se restabelecesse não nomearia nenhum bispo que não tivesse passado três anos com o santo. A rainha Ana de Áustria fez de São Vicente um membro do Conselho de Consciência encarregue de nomear os benefícios. A grande modéstia e simplicidade de São Vicente não foi, todavia, abalada por todas estas honras.
A caridade e a ação de São Vicente de Paulo ultrapassaram as fronteiras de França. Em 1638 mandou os seus padres para pregar aos camponeses em Itália, em 1638, e, de 1648 a 1660, à Irlanda, Escócia, Hébridas, Polónia e Madagáscar. Interessou-se particularmente pelos cerca de 30 000 cristãos feitos escravos no Norte de África pelos corsários turcos, uma "sorte" que ele próprio já tinha suportado. Em 1645, São Vicente enviou-lhes alguns padres missionários que lhes deram conforto espiritual e que à data da morte de São Vicente tinham sido intermediários na libertação de cerca de 1200 escravos, apesar das perseguições que eles próprios sofriam por parte dos turcos. Ao longo da sua vida, São Vicente escreveu cerca de 30 000 cartas, das quais existiam apenas 7 000 no século XVIII, tendo chegado cerca de metade até aos nossos dias. Em 1705, quarenta anos após a morte de São Vicente, foi iniciado o pedido de abertura do processo de canonização que foi apoiado por muitos bispos. O Papa Bento XIII beatificou-o em 13 de agosto de 1729, tendo sido canonizado por Clemente XII em 16 de junho de 1737. São Vicente foi designado patrono das Irmãs de Caridade, em 1885, pelo Papa Leão XIII.
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