Artigos de apoio

saudosismo
Movimento literário, religioso e filosófico, nascido do impulso dos intelectuais que constituíram a "Renascença Portuguesa", uma sociedade surgida, após a instauração da República, de um projeto de promoção da cultura nacional cumprido na edição, na fundação de universidades populares, na realização de cursos e colóquios, na constituição de bibliotecas, entre outras ações, e que tinha como órgão de trabalho e ideário da sociedade a revista A Águia, publicação que reunirá em torno deste programa de revitalização social e cultural a colaboração de Teixeira de Pascoaes, Mário Beirão, Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão, Afonso Duarte, António Carneiro, Sant'Anna Dionísio, Hernâni Cidade, Adolfo Casais Monteiro, Augusto Casimiro, Augusto Gil, Afonso Lopes Vieira, Raul Proença, António Sérgio, António Correia de Oliveira, Manuel Laranjeira, Sampaio Bruno, entre outros. Inicialmente designada "Renascença Lusitana", a sociedade, em manifesto redigido por Teixeira de Pascoaes, publicado em fevereiro de 1914 em A Vida Portuguesa (cf. GUIMARÃES, Fernando - Poética do Saudosismo, Lisboa, 1988, pp. 61-63), proclama como objetivos: "combater as influências contrárias ao nosso carácter étnico, inimigas da nossa autonomia espiritual, e provocar, por todos os meios de que se serve a inteligência humana, o aparecimento de novas forças morais orientadoras e educadoras do povo, que sejam essencialmente lusitanas." Arreigadamente nacionalista, profetizador de um ressurgimento nacional, Pascoaes encontrará na "saudade" o carácter definidor da especificidade do ser português. Para o autor de "Marânus", "quem surpreender a alma portuguesa, nas suas manifestações sentimentais mais íntimas e delicadas, vê que existe nela, embora sob uma forma difusa e caótica, a matéria de uma nova religião, tomando-se a palavra religião como querendo significar a ansiedade poética das almas para a perfeição moral, para a beleza eterna, para o mistério da vida... Ora a alma portuguesa sente esta ansiedade de uma maneira própria e original, o que se nota facilmente analisando os cantos populares, as lendas, a linguagem do povo, a obra de alguns poetas e artistas e, sobretudo, a suprema criação sentimental da Raça - a Saudade!" (id. ibi., p. 62). "Verbo do novo mundo português", a saudade é definida por Pascoaes como "o próprio sangue espiritual da Raça, o seu estigma divino, o seu perfil eterno" e seria através da revelação desta "saudade no seu sentido profundo, verdadeiro, essencial, isto é, o sentimento-ideia, a emoção-reflectida, onde tudo o que existe, corpo e alma, dor e alegria, amor e desejo, terra e céu, atinge a sua unidade divina", da "Saudade vista na sua essência religiosa", que surtiria a "grandeza do momento atual da Raça Portuguesa" (Pascoaes, n.° 1, 2.a série, p. 1), representada maximamente pelos seus poetas, em quem a saudade se revelou. Herdeira do nacionalismo legado pelo neogarrettismo e neorromantismo, e imbuída pela necessidade de ação cívica que decorrera da revolução republicana, a estética saudosista influencia poetas como Pascoaes, Afonso Lopes Vieira, Augusto Casimiro, Jaime Cortesão, Mário Beirão, Afonso Duarte ou Alfredo Brochado e manifesta-se por traços poéticos como as "alegorias referidas à Pátria-Saudade ou uma transfiguração messiânica, as correspondências e a realização verbal do inefável, os símbolos de natureza patriótica ou relacionados com a especiosa emergência duma alma portuguesa." (cf. id. ibi., p. 9), como uma tendência para a fusão entre contemplação e a paisagem, para sugerir um clima profético e visionário, para o culto da tradição, do misticismo, do génio da raça, do panteísmo e, finalmente, para a valorização da "fisionomia das palavras" (id. ibi., p. 15), isto é, do valor expressivo das próprias formas gráficas.
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