Sé Catedral de Leiria

O papa Paulo III criou a diocese de Leiria por bula de 22 de maio de 1545, dando assim resposta aos insistentes pedidos de D. João III, que igualmente intercedeu para que o respetivo bispo fosse frei Braz de Barros, o notável reformador do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Uma das primeiras preocupações do novo prelado foi a edificação de uma catedral condigna, dada a manifesta exiguidade das igrejas de N. S. da Pena e de São Pedro, que sucessivamente serviram de sés; sabendo-se que foi durante o seu governo (1545-1556) que se iniciaram os trabalhos, e que o próprio monarca se deslocara àquela cidade para aprovar a escolha do local e emendar a «invenção da obra».
A primeira pedra teria sido lançada em 11 de agosto de 1550, vindo o cabido a transferir-se para a nova catedral em 1574, quando já era bispo D. Frei Gaspar do Casal (1557-1579); e a sua traça tem sido atribuída ao arquiteto Afonso Álvares, mestre das obras do infante D. Henrique.
Este edifício, filiado nas igrejas-salão manuelinas, assume-se como uma das grandes obras do Renascimento tardio nacional, e é dominado exteriormente pelo seu «estilo frio e nu». Dentro, ressalta a grandiloquência espacial e o carácter desornamentado, com o qual contrasta o belíssimo retábulo maneirista de talha dourada e painéis pintados. A catedral leiriense ergue-se na base do monte castelejo, sobre um alto adro sistematizado em 1603-1604 por ordem do bispo D. Pedro de Castilho, adro esse que à frente é fechado por uma balaustrada de pedra lioz.
A frontaria, que foi muito alterada em consequência dos estragos nela provocados pelo terramoto de 1755, é formada por três corpos marcados por robustas pilastras salientes, todas elas coroadas por pináculos piramidais assentes em altos pedestais quadrangulares, interrompendo os do meio o liso frontão triangular que a remata. Em cada corpo existe uma porta, constituída por um arco pleno aberto num paramento de cantaria, sendo a central de maior grandeza e ornamentação; e cada uma delas sobrepujada por um janelão de coro setecentista. As fachadas laterais são ritmadas por poderosos gigantes, que enquadram as janelas das naves, e possuem remates sobre as cornijas dos beirais de idêntico recorte aos das pilastras da frontaria; tudo isto contrastando fortemente com a nudez dos muros brancos.
No majestoso interior, de planta retangular e transepto exteriormente acusado, duas séries de sóbrios pilares toscanos de secção cruciforme conformam os cinco tramos das três naves, num equilibrado jogo de proporções aritméticas. Todo este espaço é abobadado à mesma altura com múltiplas nervuras de fina secção quadrangular - no bocete que fecha a abóbada do cruzeiro pode ler-se a data de 1571 -, criando-se assim um equilíbrio compositivo tipicamente renascentista.
A cabeceira é formada por três capelas de formato retangular cobertas por abóbadas de berço de pedraria apainelada em caixotões, sendo a capela-mor geralmente atribuída aos arquitetos Baltasar Álvares e frei João Torriano. O elegante retábulo de talha do altar-mor integra painéis executados entre 1605 e 1615 pelo pintor Simão Rodrigues, considerados por Vítor Serrão um «típico documento do Maneirismo tardio», datando igualmente do século XVII as duas tribunas que ali se conservam.
As capelas situadas nos topos dos braços do transepto são semelhantes, ostentando retábulos setecentistas, junto dos quais se encontram embutidas nas paredes modernas lápides de mármore e bronze que assinalam as jazidas de alguns prelados.
A sacristia, de planta quadrangular, possui um revestimento de azulejos do tipo «maçaroca» e os vãos do teto artesoado pintados com brutescos; fazendo igualmente parte do seu recheio um lavabo seiscentista esculpido em mármores de tonalidade diversa, um arcaz de boas madeiras e diversas telas penduradas nas paredes.
O claustro, de severa austeridade, é formado por um pequeno pátio emoldurado por corredores cobertos por abóbadas cintadas, e terá sido uma das obras acabadas no tempo do bispo D. Pedro de Castilho.
Este templo já sofreu diversas destruições, sendo a maior aquela que resultou do criminoso incêndio que as tropas napoleónicas lhe atearam em 1811, tendo então sido reduzida a cinza a maior parte da ornamentação interior. Mas outra não menos grave ocorreu recentemente, com o levantamento do lajeado interior e a sua substituição por materiais de diversa natureza; atitude lamentável e desprovida de sentido estético que provocou a destruição de um notável conjunto de monumentos epigráficos, com particular destaque para as sepulturas armoriadas de diversos fidalgos leirienses.
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