Sé Catedral de Vila Real

A criação da diocese de Vila Real pelo papa Pio XI, em 20 de abril de 1922, originou a elevação a sé catedral da igreja do antigo Convento de São Domingos daquela cidade, cuja fundação se ficou a dever à iniciativa dos dominicanos vimaranenses. Situado «fora de portas», a sua primeira pedra foi solenemente lançada a 8 de maio de 1424, em presença de frei Vasco de Guimarães e das diversas autoridades locais.
A austera igreja, que apesar de gótica conserva um acentuado cunho românico, viria a sofrer algumas alterações no decorrer do século XVIII, sobretudo ao nível da cabeceira. Expulsos os frades em 1834, e transformado o edifício conventual em quartel militar, este viria a ser devorado, no dia 21 de novembro de 1837, por um incêndio de origem criminosa, que igualmente reduziu a cinzas a maior parte da ornamentação interior do templo. No início da década de 40 do século XX, a antiga igreja conventual foi amplamente restaurada sob a égide dos Monumentos Nacionais.
Este monumento é particularmente notável pelo seu conjunto de capitéis esculpidos, de vigoroso naturalismo, e pelos arcossólios góticos onde jazem diversos membros da nobreza local. Na frontaria do templo erguem-se dois poderosos contrafortes que demarcam as naves - a central sobrepujando as laterais -, entre os quais avança ligeiramente o corpo onde se rasga o singelo portal gótico, de colunelos e arquivoltas lisas, encimado por duas edículas que abrigam ingénuas esculturas quatrocentistas. No alto abre-se um largo óculo, possivelmente uma rosácea cujo espelho desapareceu. A porta lateral norte é do mesmo tipo, embora mais modesta, enquanto que a do lado oposto é formada por um arco redondo com invulgar moldura de almofadadas em ponta de diamante.
A reforma empreendida em 1755, possivelmente devida aos efeitos do terramoto, originou profundas alterações na estrutura da cabeceira, passando então a sacristia e a capela-mor a ostentarem uma ornamentação exterior de estilo rocaille, igualmente patente na nova torre que foi adossada ao seu flanco sul.
Exteriormente, merecem ainda menção as cachorradas sob as cornijas dos beirais, as molduras que marcam um segundo piso e duas pequenas rosáceas, uma na empena do arco triunfal e a outra na do braço sul do transepto.
O interior, com cobertura de madeira, segue o modelo das igrejas mendicantes da época: três naves com igual número de tramos e transepto saliente, sendo aquelas delimitadas por arcadas longitudinais de arcos quebrados - que sobre os vãos do transepto apresentam maior dimensão -, todos eles sustentados por robustos pilares com colunas embebidas e arestas cortadas por chanfraduras côncavas. A iluminação completa-se com um clerestório e frestas de pequena dimensão nas paredes das naves laterais.
A capela-mor, que sofreu grandes obras de remodelação na segunda metade do século XVIII, é de formato retangular e coberta por uma abóbada de berço rebocada, com três tramos definidos por arcos torais. Do recheio com que então foi dotada, ainda se conserva parte do cadeiral de pau-preto, amputado durante as obras de restauro dirigidas pelos Monumentos Nacionais, durante as quais se procedeu igualmente à substituição do retábulo de talha por outro, de maior pendor clássico, mais adequado à sua reconquistada austeridade.
Espalhados pelas paredes encontram-se diversos arcossólios góticos, destacando-se o que contém o túmulo de Diogo Afonso e de sua mulher Branca Dias, com um belo arco quebrado de espelho trilobado e arca assente em leões de pedra.
Mas o que causa maior surpresa e admiração é o notável conjunto de capitéis decorados com grande variedade de motivos antropomórficos e fitomórficos. Neles se vislumbram figuras de adorável perfil rodeadas por um emaranhado de folhas, tais como o guerreiro, o sacerdote, o caçador que espera a sua presa oculto atrás de uma árvore, o vindimador que colhe as uvas com ternura e o outro que as acompanha até aos cestos das vindimadeiras; constituindo uma extraordinária representação das classes sociais e das atividades produtivas que então predominavam. O forte naturalismo que deles emana, apesar das deficientes proporções e da ingenuidade do modelado, constitui a viva e espontânea manifestação de um regionalismo medievo dificilmente ultrapassável.
Na sacristia, conserva-se uma pequena tábua quinhentista representando a Virgem, atribuída à Escola Italiana.
Foi classificada Monumento Nacional por decreto de 19 de fevereiro de 1926.
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