Semana Santa de Sevilha

A tradição da Semana Santa de Sevilha remonta ao século XIV e tem origem nos grémios e nas confrarias de penitência daquela cidade, que surgiram nos séculos XIII e XIV e se consolidaram definitivamente, em termos de estatutos e natureza, nos séculos XV e XVI.
Os grémios são associações de homens livres que vivem do comércio ou praticam um ofício, geralmente agrupados em ruas ou bairros por corporações. Alguns destes grémios terão estado estreitamente vinculados às primeiras confrarias que mantiveram a sua índole profissional até ao século XVI e que depois abraçaram uma vertente devocional. Esta vinculação surgiu por uma necessidade de unir as ações sociais de caridade e as práticas de beneficência e hospitalares ao culto religioso.
Em termos gerais e um pouco indistintos, a confraria define-se desde a época medieval como uma associação ou irmandade com fins religiosos, de pessoas de sexo diferente, pertencentes ou não a uma mesma profissão, grémio ou estatuto social. O seu carácter laico está associado a uma determinada causa social ou de beneficência e funciona sob a proteção de um santo patrono protetor ou do Cristo Redentor. Muitas confrarias foram fundadas através das Ordens Mendicantes, como os Franciscanos ou os Carmelitas, para além dos Jesuítas, que seguem os exemplos dos seus mestres. A Semana Grande, ou Santa, de Sevilha tem um ambiente muito especial que a distingue das demais celebrações que existem um pouco por toda a Andaluzia. A preparação das procissões começa semanas antes, com a colocação de barras metálicas nos percursos, enquanto que nas montras das lojas e cafés se podem ver reproduções de imagens ou andores em miniatura e nazarenos de caramelo reproduzidos ao pormenor nos escaparates das pastelarias. Durante esta semana é também tradição comer as torrijas e os pestiños.
As cerca de 57 confrarias de Sevilha - das quais a mais antiga, El Silencio, tem mais de 650 anos - preparam-se durante todo o ano para a Semana Santa e rivalizam em talento para enfeitar os andores de Cristo e da Virgem que fazem desfilar pela cidade, desde a sua igreja de bairro até à Santa Iglesia Catedral e de volta - a Recogía - ao seu templo inicial. A Carrera Oficial - percurso de penitência efetuado pelas confrarias - teve origem na necessidade de se regulamentar este ato, no início do século XVII, devido ao grande aumento de confrarias no século anterior, como resposta da Igreja Católica contra a reforma luterana. A proliferação de confrarias e os distintos percursos utilizados causavam problemas de circulação que frequentemente causavam desordem e violência entre os confrades. O então Arcebispo de Sevilha estabeleceu o percurso e os dias a que as confrarias poderiam sair. Hoje em dia, as procissões das distintas confrarias têm lugar nos oito dias que decorrem entre o Domingo de Ramos e o de Páscoa e constam do programa oficial, com horas e percursos definidos, que tradicionalmente começam pela La Borriquita, no Domingo de Ramos, e terminam com La Resurrección, no Domingo de Páscoa.
Enquadrados na procissão, os nazarenos, penitentes laicos de túnica, capuz com máscara e por vezes uma capa, com as cores da sua confraria, desfilam muitas vezes descalços com um passo lento e ritmado pelo martelo do Capataz, que também impõe a marcha aos dezenas de costaleros de olhos vendados que carregam os andores com as imagens sagradas - os pasos -, que chegam a pesar 2000 kg. Mas são talvez os aguaó, os confrades que realizam a penitência mais dura dado que têm a missão de levar água aos costaleros para lhes saciar a sede, carregando bidões de água que recolhem dos cafés, bares e restaurantes durante todo o percurso. Cada hermandade transporta o seu estandarte, popularmente chamado de bacalao, com o respetivo escudo bordado.
A multidão reúne-se durante todo o percurso para venerar as imagens santas e para testemunhar o sacrifício dos costaleros e a autoflagelação dos nazarenos. A aglomeração de pessoas dá lugar à vulgarmente chamada bulla, um engarrafamento de grande aperto que frequentemente provoca desmaios e gritos. O aroma da primavera confunde-se com os do incenso e da cera, intensificando o ambiente religioso que se vive nesta altura. Quase todas as confrarias que fazem penitência são acompanhadas pelos cantos da saeta, por martinete.
A tradição manda que se estreie alguma coisa no Domingo de Ramos, para que as mãos não caiam. Na Quinta e na Sexta-feira Santas as mulheres vestem traje de mantilla, adornado de cravos na Quinta-Feira Santa e sem cravos na Sexta-Feira Santa, como sinal de luto, e visitam-se sete sacrários, como impõe a ocasião.
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