Sermões

O Pe. António Vieira, considerado o maior orador sacro de Portugal, dominou todo o século XVII pela sua personalidade vigorosa, gigantesca e exuberante, entregue completamente ao realismo político do seu tempo e à faina humilde e ardente de missionário sincero. Transformando o púlpito em poltrona de deputado, soube destemidamente lutar pelos direitos dos oprimidos, empenhando-se sempre em assegurar a conservação de um Portugal independente numa época tão difícil como a da Restauração. Por isso, a gama dos seus sermões é variada e aponta, globalmente, para dois grupos distintos: os sermões estritamente religiosos (por exemplo, a série "Cinco Pedras de David" e a maioria do ciclo "Rosa Mística") e os sermões que tratam de um determinado assunto político ou social então em debate, mas sempre com um fundo religioso e tendo por ponto de partida um texto bíblico, geralmente extraído do missal da festa litúrgica do dia. O poder do verbo de Vieira era tal que não só dissertou magistralmente sobre os assuntos mais diversos, mas também mais do que uma vez sobre o mesmo assunto: 30 sermões sobre o Rosário, 18 sobre S. Francisco Xavier, 14 sobre a Eucaristia, 9 sobre Santo António de Lisboa, 7 sobre São Bento, 6 sobre o Santíssimo Sacramento, 4 sobre S. Roque, 3 sobre S. José, 3 sobre a Ressurreição, etc.
Qualquer destes sermões obedecia, quase sempre, a uma estrutura consagrada no seu tempo: o exórdio ou introito, em que o orador expunha o plano que iria defender, baseado num conceito predicável extraído normalmente da Sagrada Escritura; a invocação, em que se invocava o auxílio divino para a exposição das ideias; a confirmação ou argumento, em que se fazia a exposição do tema através de alegorias, sentenças e exemplos para deles tirar ilações e a peroração, a última parte do sermão, em que o orador, recapitulando o seu discurso, usava um desfecho vibrante de forma a impressionar o auditório e a exortá-lo, a pôr em prática os seus ensinamentos.Os mais conhecidos sermões de Vieira prendem-se a conjunturas históricas determinadas: o sermão de Santo António pregado em 1638 na igreja e no dia do mesmo santo, havendo os holandeses levantado o sítio que tinham posto à Baía; o sermão pelo bom-sucesso das armas de Portugal contra as da Holanda, pregado na Baía em 1640; o sermão dos Bons Anos, pregado em S. Roque em 1642, com o fito de aumentar a confiança em D. João IV e na futura grandeza da pátria; o sermão de Santo António, do mesmo ano, proferido na véspera da reunião das Cortes, a fim de incitar todas as classes da nação a contribuírem generosamente para a defesa nacional; o sermão de Santo António aos peixes, pregado em S. Luís do Maranhão em 1654, que ilustra a sua imaginação e poder satírico na simbologia que atribui aos peixes; o sermão da primeira oitava da Páscoa, pregado em 1656 na igreja matriz de Belém do Pará; o sermão da Sexagésima, proferido na Capela Real em 1655, dirigido contra os pregadores gongorizantes, em especial contra o dominicano Fr. Domingos de S. Tomás, em favor da simplicidade e do espírito evangélico. Neste último sermão encontramos toda a sua teoria sermonária preconizadora de uma estética e estrutura não observadas nos pregadores do seu tempo, anunciada no tema "Averiguar a verdadeira razão por que, havendo tantas pregações, se lograva tão pouco fruto". Fundamentada no conceito predicável Semen est verbum Dei (S. Lucas, VIII, 1), extraído da parábola do semeador - Ecce exiit qui seminat seminare, responde, inicialmente, aos censores do seu regresso das terras do Brasil, justificando-o com a necessidade de continuar com mais eficiência a atividade missionária. Atribui a ausência de fruto na pregação das palavras de Deus aos pregadores que atuam com palavras e pensamentos e não com palavras e obras e usam um estilo "empeçado", "dificultoso" e "afetado", de difícil acesso ao público, quando deveriam ter um estilo "muito fácil e natural". Refere-se ainda à matéria dos sermões que deve ser apenas uma, definida, dividida, provada com a Escritura, declarada com a razão, confirmada com o exemplo, amplificada com as causas, com os efeitos e as circunstâncias e, depois disto, poderá então colher, apertar, concluir, persuadir. Conclui, finalmente, que o defeito está nos pregadores que deturpam a palavra de Deus, que acabam por não a pregar. O bom pregador será, pois, aquele que faz com que os ouvintes não saiam muito contentes com ele, mas "muito descontentes de si", evitando interpretações forçadas do Evangelho e fugindo de malabarismos cultistas que fazem do sermão "comédia".O sermão pelo bom-sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda é, segundo o Padre Raynal, "o mais veemente e extraordinário que jamais se ouviu em púlpito cristão". Fundamenta-se no Salmo XLIII, 23-26, que diz Exurge! Quare obdormis, Domine? (levanta-te! Por que dormes, Senhor?) e ousa acusar o próprio Deus que se deixava dominar pelo herege holandês e não ajudava o povo eleito - os portugueses da Baía.O sermão do Santo António aos peixes baseia-se no conceito predicável Vos estis sal terrae (S. Mateus, vers.13) e é todo ele feito de alegorias, simbolizando os vícios dos colonos do Brasil ("peixes grandes que comem os pequenos") em vários peixes - roncador (o orgulhoso), voador (o ambicioso), pegador (o parasita) e o polvo (o traidor, mais traidor que o próprio Judas).Como vemos, o estilo de António Vieira aponta para uma vertente medieval que assenta na alegoria, mas também para processos conceptistas que o celebrizaram como um tecelão barroco, cheio de perícia em desfiar os textos bíblicos para compor um texto novo. O "desfiamento" faz-se sob a forma de uma hermenêutica, mostrando o tecelão que o tecido antigo já trazia na sua trama a matriz do tecido produzido. A mestria do tecelão configura um discurso transparente no seu texto-escravo - escravo porque a sua produção decorre de uma leitura de certa forma servil, sujeita a uma orientação que lhe é predeterminada pela Teologia oficial. Todavia, Vieira tece este discurso velho, moldando-o às suas ideias, brincando com as palavras como uma criança entusiasmada e fascinada à semelhança dos escritores da época. Surge-nos então como um verbo-ludista e nos seus sermões convivem o conceptismo e o cultismo da arte barroca, na técnica do docere e do delectare: uma pedagogia sabor prazer... Para esse desempenho usou habilmente da vivacidade da elocução conseguida, de forma magistral, pelos polissíndetos, pelos assíndetos, pelas sinédoques, pelas comparações, pelas anástrofes, pelas exclamações, pelos trocadilhos, pelos paralelismos metafóricos, pelas antíteses, pelas gradações, pelas apóstrofes, pelas prosopopeias, pelas perguntas e respostas, pelas réplicas e tréplicas, pelas enumerações exemplificativas, pelo uso frequente da anáfora e por uma adjetivação apropriada e bem graduada.
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