Sindbad, o marinheiro

Na saga das As Mil e Uma Noites, Schehrazad, na 291.ª noite, preparou-se para contar ao rei Schahriar a história de Sindbad, o Marinheiro. Sindbad, cujo nome significa "viajante em Sind" (uma província do Paquistão), é uma figura lendária de tempos antigos, conhecedora da náutica do seu povo.
Reza a lenda que, no tempo do Califa Harun-al-Rashid (786-809 a.C.), vivia, em Bagdade, um homem muito pobre que ganhava a vida a carregar fardos à cabeça. Chamava-se Hindbad (por vezes Sindbad), o Carregador, e tinha muito jeito para fazer versos. Um dia, parou de baixo da janela de um palácio para descansar e cantou alguns versos da sua autoria, nos quais comparava a sua má sorte e pobreza com a do senhor rico que viveria naquele luxuoso palácio. Quando se preparava para retomar o caminho, foi convidado a entrar no palácio por um criado que o levou à presença do amo que, por ter ouvido os versos, queria conhecer o poeta. Por coincidência, este homem rico chamava-se Sindbad, o Marinheiro, e convidou o pobre homem a sentar-se e a ouvir a história da sua vida e das suas aventuras.
Sindbad, o Marinheiro, filho de um rico comerciante, dissipou toda a riqueza na juventude, após a morte do pai. Um dia, reuniu o pouco dinheiro que lhe restava e decidiu empreender uma viagem para recuperar a fortuna. O barco em que viajava aportou numa ilha paradisíaca, onde todos se propuseram retomar forças, acendendo, então, uma fogueira para cozinharem. Nesse momento, sentiram um tremor de terra e ouviram o comandante, que tinha ficado no barco, gritar que fugissem. Na verdade, a ilha era uma baleia gigante adormecida, em cima da qual a areia se tinha juntado e a vegetação tinha crescido, e que, naquela altura, tinha sido despertada pela fogueira. Tentaram fugir todos da ilha, mas Sindbad não conseguiu alcançar o barco e ficou à deriva, agarrado a um pedaço de madeira. Um dia, acordou numa ilha, onde saciou a sede e a fome e, ao percorrê-la, avistou uma égua lindíssima amarrada a uma árvore. Quando se aproximou, a égua soltou horríveis rinchos e, em seguida, surgiu um homem que o levou para uma gruta subterrânea, onde aí lhe contou uma estranha história. Disse-lhe que, naquela ilha, existiam vários homens que tinham a tarefa de cuidar dos cavalos do rei Mihrajan e, quando havia lua nova, cada um dos homens trazia uma égua para ser coberta por um cavalo-marinho gigante. Mais tarde, a égua daria à luz potros muito valiosos. Sindbad conheceu o rei Mihrajan, de quem se tornou amigo e com quem permaneceu durante muitos anos, dado que ninguém conhecia o caminho para a sua terra. Algum tempo depois, Sindbad encontrou o capitão do navio, no qual viajara, que se preparava para vender, na capital da ilha, as mercadorias de Sindbad, e cujo rendimento entregaria à família do jovem. O capitão, quando reconheceu Sindbad, ficou muito contente, devolveu-lhe a mercadoria e levou-o de regresso a casa. Recebido pela família com grande alegria, Sindbad comprou casa, móveis e escravos e retomou o seu antigo estilo de vida até que, um dia, foi surpreendido pelo desejo de fazer uma segunda viagem por mar. Dirigiu-se ao mercado onde comprou mercadorias para comerciar e partiu de Bassorá. O navio passou por muitas ilhas e lugares, até que desembarcaram numa ilha lindíssima, onde permaneceram durante algumas horas. Sindbad deitou-se à sombra de uma palmeira e, quando acordou, viu que o navio tinha partido, deixando-o para trás. Lamentando a sua sorte, Sindbad percorreu a ilha até que encontrou uma enorme bola branca. De repente, avistou um pássaro gigante que se aninhou em cima da bola que, afinal, era um ovo. Sindbad retirou o seu turbante, amarrou-o à cintura e, em seguida, a um dos dedos do pássaro, que eram grossos como troncos de árvore. Quando o pássaro levantou voo, levou consigo Sindbad, que só se desatou, quando o pássaro desceu a um vale para caçar uma enorme serpente. Aquele local estava cheio de rochas de diamantes, rodeadas de enormes serpentes e de grandes bocados de carne. Sindbad lembrou-se da história que ouvira de alguns mercadores, segundo a qual estes atiravam carne para o vale por forma a que ela ficasse agarrada aos diamantes. Depois, resgatada pelos pássaros gigantes, a carne era levada para os ninhos e aí os homens capturavam as preciosas pedras. Para se salvar, Sindbad utilizou, então, a técnica dos mercadores. Encheu os bolsos de diamantes, amarrou-se a um pedaço de carne e, assim, foi salvo pelos mercadores, regressando a casa mais rico do que nunca.
Na sua terceira aventura, Sindbad encontrou uma ilha, matou um monstro e reencontrou o navio e as mercadorias que tinha perdido na segunda viagem.
Na quarta viagem, Sindbad aportou numa ilha de canibais, onde engordavam as presas para as comer. Sindbad conseguiu fugir dali e encontrou depois um reino onde as pessoas montavam sem sela. Construiu uma maravilhosa sela e arreios para o rei que, impressionado e agradecido, lhe deu uma mulher nobre e rica por esposa. Quando Sindbad se preparava para voltar à sua terra, a sua esposa adoeceu. Esta, já moribunda, contou-lhe que, naquele reino, nenhum esposo sobrevivia ao outro e, portanto, quando um morria, o outro era enterrado com ele. Sindbad foi então enterrado com a sua esposa num poço, mas conseguiu escapar por uma brecha, levando todas as riquezas do túmulo. Quando alcançou o mar, avistou um navio que o levou de volta a Bagdade.
Na quinta viagem, Sindbad naufragou numa ilha, onde foi escravo. Depois de se libertar, entrou num navio, que o levou até à Cidade dos Macacos (onde ganhou muito dinheiro na apanha e venda de cocos) e que, posteriormente, o transportou a Badgade.
Na sexta e sétima viagens, Sindbad encontrou muitas riquezas e conheceu uma ilha em que os homens tinham asas e voavam.
Sindbad acabou a narrativa das suas aventuras e lamentou-se a Hindbad, o Carregador, dizendo-lhe que este tinha tido uma vida mais sossegada junto da sua família. O pobre homem concordou e Sindbad, o Marinheiro, tendo-lhe ganho amizade, deu-lhe dinheiro e admitiu-o como seu mordomo, vivendo os dois, a partir desse momento, como bons amigos. Neste ponto, Schehrazad interrompeu a história, porque já era de manhã, mas prometeu a Schahriar que, no dia seguinte, lhe contaria a história de Aladino e da Lâmpada Mágica.
Note-se que estas aventuras de Sindbad, o Marinheiro, se assemelham às vividas por Ulisses, na Odisseia, pela nostalgia da pátria, pela procura incessante do desconhecido e pela sede de experiências. Da história de Sindbad foram feitas várias interpretações cinematográficas, entre elas Sinbad the Sailor (de Richard Wallace, 1947), The Golden Voyage of Sinbad (de Gordon Hessler, 1973) e a animação Sinbad: Legend of the Seven Seas (de Tim Johnson, Dream Works, 2003).
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