Socialismo Revolucionário

O Socialismo Revolucionário idealizado por Trotsky nasceu na criação da IV Internacional, fundada a 3 de setembro de 1938 por aquele dissidente da Revolução Soviética de 1917, perante o rumo que esta tomou com Estaline a partir da sua chegada ao poder na URSS, em 1922 (até 1953, data da sua morte). Define-se como um socialismo em permanente revolução, não apenas na URSS mas fora desta, isto é, em expansão no máximo número de países. Baseia-se na tese de Trotsky do "desenvolvimento desigual combinado". Este radica na ideia de que quanto mais atrasado é um país, mais avançada é a parte mais desenvolvida da sua economia. Assim, quanto mais tarde um país arrancar a sua industrialização, mais conservadora será a sua burguesia, pois esta terá um receio maior do proletariado do que da nobreza, a quem se opõe. Aqui entra a Revolução Permanente, pois a burguesia não consegue fazer a sua "revolução burguesa", o que faz com tenha que ser o proletariado a avançar politicamente, como fez em 1905 e depois em 1917 na URSS. O proletariado visa acima de tudo impor um programa socialista, não uma revolução liberal, como a burguesia. A revolução tende pois a ser permanente, pois a luta do proletariado contra a opressão capitalista o é também, o que faz com o Socialismo Revolucionário assuma posições radicais e de força. Se recordarmos a Revolução Russa de 1917, esta dividiu-se me duas fases: uma liberal-burguesa (mais democrática e republicana), menchevique, em fevereiro, outra socialista e proletária (ditadura do proletariado), bolchevique, em outubro. Bietápica, dir-se-ia, como a revolução portuguesa de 1974, que evoluiu, na segunda fase, para o populismo socialista do PREC.
O Socialismo Revolucionário aparece, neste sentido, a partir do momento em que defende que toda e qualquer revolução socialista só tem êxito se tiver apoio de outras revoluções em curso noutros países e se se expandir com bons resultados para nações mais desenvolvidas. A Revolução Permanente assenta pois no aprofundamento e valorização dos seus conteúdos ideológicos marxistas-leninistas e na sua expansão, seus vetores dinâmicos. O Socialismo Revolucionário, fundamento dessa Revolução Permanente, defende assim a luta contra formação de "burocratas" ou "dirigentes profissionais" nos partidos revolucionários, nos sindicatos, associações, etc., que as revoluções socialistas geraram. De oprimidos passam a opressores, a imporem o seu poder e a aniquilar a revolução permanente, pois passam a poderes instituídos e acomodados. Luta ainda contra a estagnação e "embrutecimento" do proletariado que a esses poderes ficaria subordinado, os quais tendem sempre a limitar as possibilidades de evolução doutrinal e cultural do mundo proletário. "Embrutecido", esse proletariado não poderá nunca ascender à direção do Estado, o que leva a que este se burocratize e aparelhize à imagem e em função dos chefes instalados. Nascem assim as desigualdades socialistas, como na URSS de Estaline, à imagem da sátira de Orwell do Triunfo dos Porcos: "os animais são todos iguais, mas há uns mais iguais que os outros".
O Socialismo Revolucionário trouxe assim à luz do dia as duas tendências que nasceram nos estados ditos "operários" ou socialistas: uma, a dos burocratas, com o poder concentrado nas suas mãos, anestesiando o povo numa passividade revolucionária e política inibidoras; outra, a do desenvolvimento material e cultural da nação em bases de igualdade, o que faz com que se estimule a participação popular no poder e se enfraqueça o poder do aparelho de Estado. A Revolução Permanente é, diga-se, a tentativa de manter vivos os ideais socialistas e operários das revoluções proletárias, impedir a cristalização e estagnação dos ideais revolucionários que desmantelaram monarquias e feudalismos, burguesia e nobreza. Essa estagnação gera uma nova tirania e um Estado pesado demais para a prossecução dos ideais do Socialismo. A construção do Socialismo é acima de tudo um itinerário de avanços e recuos, que se atinge apenas com a emergência plena de uma sociedade comunista à escala mundial e com o desaparecimento do Estado. O atraso, a letargia, a inibição da participação popular que a burocratização estatal implicam fomentam ainda mais a degradação do Estado e o atraso do desenvolvimento material e cultural. O Socialismo Revolucionário é pois uma corrente que pretende manter viva a chama e fulgor da revolução, não fazer esmorecer os ideais socialistas e proletários. O Socialismo Revolucionário prefigura, de certo modo, a "democracia operária", alternativa única ao capitalismo. A democracia operária desta corrente socialista pressupõe pois a participação dos trabalhadores e consumidores na planificação económica dos países, não a dos burocratas, como aconteceu a partir de 1927 na URSS, com Estaline, que criou uma dinastia de "aparatchiks" soviéticos (aparelhistas de Estado, "nomenklatura") que tiranizou brutalmente a ideia revolucionária de Lenine e a desconfigurou mesmo do ponto de vista do Socialismo. Deste modo, o Socialismo Revolucionário vê na Revolução Permanente a luta contra esses momentos de não-retorno aos ideais revolucionários e acima de tudo contra a possibilidade que os mesmos geram de uma contrarrevolução burguesa, como surgiria, de certo modo, em 1989-1991, com a queda dos regimes da Europa de Leste. Os quais eram, para Trotsky, um conjunto de "estados operários burocraticamente degenerados", regimes de "transição instáveis, prestes a serem derrubados a qualquer momento". Como viria a acontecer...
O Socialismo Revolucionário, por fim, procura a superação dos defeitos "burocráticos" do Socialismo dos Partidos Comunistas, que acusam de um certo "estalinismo". Aquela corrente socialista é pois anti-capitalista, anti-estalinista e um viveiro de dissidentes, socialistas críticos, de todos os que rejeitam as opiniões dominantes e propensos a cisões ou crises.
Em Portugal, o Socialismo Revolucionário é representado pelo antigo Partido Socialista Revolucionário (PSR), hoje integrante do Bloco de Esquerda (BE), e pelo Partido Operário de Unidade Socialista (POUS), entre outras célula menores, mais ou menos ativas.
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