Sociedade de Corte

A sociedade de corte define-se, epocalmente, pela sociedade europeia do Absolutismo monárquico, cristão e do Barroco, a sociedade, dir-se-ia, do Antigo Regime que cairia com a Revolução Francesa de 1789. Portanto, a sociedade pré-iluminista ou pré-liberal, quando muito, pré-industrial. Geograficamente, compreende as monarquias europeias absolutas da Europa Ocidental e Central e suas projeções coloniais (Brasil, América do Norte), para além do paralelismo russo dos czares ou mesmo da corte papal. Do ponto de vista sociológico, a sociedade de corte tinha uma conceção corporativa, concebia-se como um corpo, portanto, cuja constituição proviria da natureza. Os seus órgãos eram auto-regulamentáveis, e a sua constituição era fundamentada pela tradição, pela história. A sociedade civil do liberalismo estava ainda longe nesta conceção corporativa da sociedade de corte barroca, mas apresentando já algum individualismo (talvez ainda só "voluntarismo"), onde a vontade e o pacto, ou contrato, se assumiam como alternativas à função constituinte da natureza.
A sociedade de corte possui assim uma conceção naturalista da ordem social, em que o todo se sobrepõe ao individual, à maximização dos instintos hedonistas dos homens dentro de uma sociedade civil, de cidadãos, já não de súbditos. Estes fazem parte da sociedade corporativizada da sociedade de corte, onde a cabeça é o rei. Ele é a parte sensitiva do corpo que é a sociedade, cabendo-lhe zelar e garantir a harmonia do todo, mas sem ter, obrigatoriamente, as funções dos membros. Era pois uma sociedade hierarquizada, de ordens, de elites, de grupos preponderantes, sem partilha de poder político, repartido na sua natureza. O rei garantia a representação do corpo, a sociedade, na sua unidade, mas também deveria manter a harmonia entre todos os seus membros, definindo para cada um aquilo que lhe dissesse respeito. Um dos princípios sobre os quais assentava a monarquia absoluta - e que ajuda a definir a sociedade de corte - é o da liberalidade do soberano, a sua capacidade de conceder graças, o seu principal capital simbólico.
Uma conceção de sociedade bastante estruturada, assente em grupos - membros - funcionais, diferenciados social e economicamente, como ao nível político, com assimetrias e uma parca relação ou progressão entre aqueles, quase estanques. Os símbolos foram sempre de suma importância na definição e consolidação da sociedade de corte, conferindo estatuto ou prestígio, principalmente ao mais próximos da cabeça, do rei, aqueles que compunham a corte, onde a etiqueta, o título, a fortuna, a honra, a tradição, a família conferiam status e davam acesso à mesma. A corte barroca ganhou em visibilidade, pelo seu fausto, pela sua grandeza, erudição e cultura muitas vezes, desruralização e maior proximidade do poder político, porque mais perto da "cabeça". Por isso, o palácio, o solar, a habitação enfim, o seu recheio, a sua nobilitação e antiguidade, o seu peso e lugar na tradição, a sua relação com a realeza absoluta, a sua supremacia no "corpo" eram também fatores de identificação da corte, como a educação, a vida religiosa, a etiqueta social e familiar, a política matrimonial e de perpetuação de linhagens.
A sociedade barroca, do absolutismo, de Luís XIV, como a de D. João V (esta com mais elementos não-aristocráticos, oriundos da burguesia, do que as da Europa), em Portugal, é uma sociedade de elites, uma sociedade onde as relações e interdependências dos grupos sociais se operam em função da harmonia do corpo, das práticas sociais, dos hábitos e normas, da etiqueta, das marcas representativas de cada grupo. Uma sociedade que acabava por ser uma rede de interdependências e sujeita a grandes transformações, onde as elites - representadas pela corte, de que eram os seus áulicos - detinham o poder, demonstrando-o através das suas propriedades, construções públicas, festas e atos efémeros, através da caridade pública por vezes, da sua prática religiosa e da sua comunhão com o poder e a cultura. A configuração da sociedade de corte é patriarcal, o que sustenta o carácter sagrado da realeza. Esta conceção social não sobreviveu, na sua forma barroca, ao advento e triunfo do liberalismo parlamentar e burguês do século XIX. Um dos case study mais singulares das sociedades de corte é o que se relaciona com a transferência da família real portuguesa para o Brasil aquando das invasões francesas, a qual transplantou para aquele território todos os mecanismos e modelos desta forma de abordagem civilizacional empiricamente demonstrável que foi celebrizada por Norbert Elias.
Como referenciar: Sociedade de Corte in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-10-23 22:25:04]. Disponível na Internet: