Sociedade Portuguesa de Oitocentos

A partir de 1834, com o triunfo definitivo do liberalismo, ocorreu uma profunda alteração no tecido social português. O clero foi, muito provavelmente, o estrato social mais afetado, sobretudo o clero regular, que praticamente desapareceu com a extinção das ordens religiosas. Menos lesado foi o clero secular, embora visse acentuada a sua dependência face ao Governo. Pode-se afirmar que, de um modo geral, os rendimentos do clero foram gravemente afetados.
A nobreza tradicional também sentiu os efeitos da vitória liberal; contudo, as dificuldades crescentes em viver apenas com a renda das terras levaram-na a apostar nas atividades comerciais e industriais, tradicionalmente ligadas à burguesia, o que facilitou a aproximação destas duas classes sociais. Esta aproximação foi muito ambicionada pela alta burguesia. Na falta de uma consciência de classe, que a impediu de impor os seus valores como dominantes, a burguesia aspirou à concessão de títulos nobiliárquicos. Muitos burgueses neste período procuraram adquirir títulos, em especial de barão e de visconde. Esta situação foi caricaturada por vários autores da época, como Almeida Garrett:
"(...) Ora, sem sair dos barões e tornando aos frades, eu digo: que nem eles compreenderam o nosso século nem nós os compreendemos a eles (...) Por isso brigámos muito tempo, afinal vencemos nós, e mandámos os barões a expulsá-los da terra. No que fizemos uma sandice como nunca se fez outra. O barão mordeu no frade, devorou-o (...) e escoiceou-nos a nós depois. Como que havemos nós agora de matar o barão?" (Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra). A nobilitação da burguesia foi também permitida pela venda dos bens nacionalizados. Um grande número de burgueses, detentores do capital financeiro, controlou a aquisição desses bens fundiários, o que favoreceu a apropriação dos valores da nobreza pela burguesia e a formação de uma nova nobreza poderosa, frequentemente oriunda da burguesia.
No período da Regeneração, a situação alterou-se. Com o desenvolvimento da economia nacional (mercantilização da economia), a alta burguesia adquiriu maior importância política e económica, num momento em que cresciam as classes médias. Começava então a surgir a consciência de classe, por parte da burguesia.
Na segunda metade do século XIX, a burguesia constitucional reforçou essas tomadas de consciência e assim os título nobiliárquicos passaram a ser menos procurados e por vezes até desprezados por alguns burgueses endinheirados. Apoiada numa pequena aristocracia, a burguesia dominava a governação desde 1870.
A afirmação da burguesia no período da expansão do liberalismo coincidiu no plano cultural e intelectual com o aparecimento do movimento romântico (que surgiu ainda na primeira metade do século XIX), que refletia a valorização da afirmação do indivíduo.
O romantismo afirmou-se como um movimento cultural e artístico marcado pela valorização da imaginação, dos sentimentos e da liberdade individual, que privilegiava nas suas obras os temas naturalistas e exóticos.
Na literatura exaltavam-se os valores individualistas e nacionalistas, que muitas vezes iam buscar a sua fonte de inspiração à Idade Média. Na Europa destacaram-se autores como Victor Hugo ou Goethe, enquanto em Portugal os nomes mais sonantes eram os de Alexandre Herculano (romancista, historiador e arquivista), Almeida Garrett (poeta, romancista, jornalista e político liberal) e Camilo Castelo Branco (escritor e polemista).
Na pintura e na arquitetura afirmou-se o gosto por ambiências fantásticas, exóticas e bucólicas e retomaram-se estilos passados, ligados, sobretudo, à Idade Média (por exemplo, o Neogótico e o Neomanuelino).
A expansão do liberalismo e da industrialização contribuíram para o desenvolvimento do ensino público, que favorecia a formação de uma consciência cívica, a criação de uma mão de obra especializada e a ascensão dos indivíduos, em especial daqueles que tinham acesso a uma educação mais prolongada.
Em Portugal o ensino público entrou em franca expansão, após o triunfo da ideologia liberal. O ensino primário passou a ser uma condição obrigatória para a modernização do país. Durante o Setembrismo, Passos Manuel reformou o ensino, nomeadamente através da criação de liceus (1836-37) nas capitais de distrito e pela reformulação do ensino técnico, artístico e superior.
Fontes Pereira de Melo (1852) também apostou no ensino técnico, criando o Instituto Industrial de Lisboa e a Escola Industrial do Porto. Esta política educativa foi continuada com Emídio Navarro na década de 80 do século XIX.
Na segunda metade do século renovaram-se os modelos culturais, que em muitos casos romperam com o romantismo. Alguns autores consideravam-no um estilo sentimentalista, preferindo escrever sobre o quotidiano, as injustiças sociais ou sobre o aburguesamento da sociedade.
Nesta nova corrente, o realismo, sobressaíram Stendhal, Flaubert, Zola (franceses); Dostoievski e Tolstoi (russos) e Charles Dickens (inglês). Em Portugal esta corrente literária foi representada, entre outros, por Antero de Quental, um dos protagonistas da Geração de 70, que iniciou as Conferências do Casino com o tema "Causas da Decadência dos Povos Peninsulares" (1871) e por Eça de Queirós, autor de obras intemporais como Os Maias (1888) ou As Farpas, que co-escreveu com Ramalho Ortigão.
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