toponímia

O significado dos nomes dos lugares mais antigos perdeu-se com o correr dos séculos, mas a curiosidade dos povos pelo seu passado comum não esmoreceu. Ao firmar-se a identidade coletiva de um lugar, era natural que se criassem lendas para explicar a razão de ser dos seus nomes: "Já pus o pé nela!", por exemplo, teria dado origem a Penela... O século XVIII, sobretudo, está cheio de histórias curiosas, de inegável interesse cultural mas sem qualquer valor científico.
Cabe aos eruditos franceses d'Arbois de Jubainville e Longnon a glória de terem criado uma nova ciência auxiliar da História, a toponímia, que se dedica ao estudo da origem e etimologia dos nomes dos locais. É um dos ramos principais da onomástica, ciência que também abrange a antroponímia, ou estudo dos nomes das pessoas.
A toponímia é uma ciência difícil, muito mais do que a antroponímia. Exige uma sólida base de erudição, uma metodologia segura e uma dose razoável de experiência e de bom senso. Requer o domínio da História, da paleografia, da epigrafia, da arqueologia e da etnologia, além de bons conhecimentos filológicos e dialetológicos. E, mesmo assim, há muitas dúvidas que persistem - e que só a descoberta de novos documentos ou inscrições, ou uma melhor interpretação dos existentes à luz das conquistas mais avançadas da ciência, poderão resolver. Apesar de tais dificuldades, a toponímia tem sido muito cultivada nas últimas décadas, porque se tem revelado preciosa nos mais variados domínios das ciências históricas e filológicas. É graças à toponímia que se pode ir desfazendo o mito dos povos germânicos como bárbaros destruidores: os nomes das inúmeras villæ - explorações agrícolas - que encontramos, sobretudo no norte do País, mostram que os seus possuidores originais eram, na sua maioria, lavradores de etnia germânica. É também graças à toponímia que se podem reconstituir as práticas agrícolas, as tradições religiosas, a extensão e penetração dos costumes árabes, e até os vestígios das línguas pré-romanas, temas para os quais as fontes escasseiam ou são de interpretação difícil.
As causas determinantes dos topónimos são variadas, e levam à divisão convencional da toponímia em sub-grupos, os mais importantes dos quais são:
- a antrotoponímia, que trata dos topónimos derivados de nomes de pessoas;
- a arqueotoponímia, que trata dos topónimos derivados de nomes de sentido arqueológico;
- a fitotoponímia, que trata dos topónimos derivados de nomes de plantas;
- a geotoponímia, que trata dos topónimos derivados da orografia e da geologia;
- a hagiotoponímia, que trata dos topónimos derivados do culto da Virgem e dos santos;
- a hidrotoponímia, que trata dos topónimos derivados de nomes de rios, lagos e fontes;
- a zootoponímia, que trata dos topónimos derivados de nomes de animais.
Como se determina o significado de um topónimo? Há dois caminhos principais. O mais importante, mas também o mais demorado e difícil, é fazer o levantamento do maior número possível de formas desse topónimo em documentos antigos e estabelecer a sua cronologia - mas sem esquecer, ao mesmo tempo, que os escribas, tabeliães e copistas não raro cometiam erros ou se entregavam a fantasias de interpretação; e que alguns documentos são de autenticidade duvidosa. Feito isto, é necessário consultar a documentação mais moderna que se encontra em arquivos e repartições. E muitas vezes as dúvidas suscitadas pelo topónimo obrigam a uma visita ao lugar: um suposto étimo que indica uma colina, por exemplo, não teria razão de ser num local plano.
O segundo caminho, que é um complemento do primeiro, é estudar o topónimo tal como hoje se apresenta: como se escreve, e sobretudo como é pronunciado - porque, como sublinhou o insigne filólogo Manuel de Paiva Boléo, "a tradição oral é geralmente bastante conservadora", e a ortografia oficial nem sempre está isenta de erros.
Ao estudarmos a toponímia portuguesa, descobrimos dois aspetos que convém destacar.
O primeiro, que é comum às toponímias dos outros países europeus, é a existência de famílias de topónimos - formas baseadas no mesmo étimo e relacionadas entre si. Para tornar a investigação mais interessante, as diferenças regionais e dialetais criam por vezes famílias aparentadas.
O segundo é a grande afinidade entre a toponímia portuguesa, sobretudo ao norte do Mondego, e a toponímia galega, o que não é para admirar, pois tivemos um passado comum, tanto sob o aspeto histórico como linguístico.
Não podemos deixar de nos referir aos grandes nomes da toponímia portuguesa. Sem deixar de atribuir o devido valor a eruditos como A. A. Cortesão ou Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, pode dizer-se que a toponímia científica entrou em Portugal pela mão de J. Leite de Vasconcelos, cujos estudos onomásticos ainda hoje são citados pelos especialistas. Posteriormente, Manuel de Paiva Boléo, Ferraz de Carvalho, José Pedro Machado e Joaquim da Silveira deixaram-nos estudos de grande valor. A influência árabe, que fora já estudada para Espanha por Miguel Asín Palacios, foi objeto dos trabalhos de David Lopes e Pedro Cunha Serra. Finalmente, é justo recordar a obra de A. de Almeida Fernandes, cujas investigações da toponímia medieval destruíram confusões há muito arreigadas e abriram novos caminhos aos especialistas.
Como referenciar: toponímia in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-10-24 01:41:32]. Disponível na Internet: