Um Falcão no Punho

Subordinado ao subtítulo Diário I, constitui o primeiro volume de uma série em que se integram Finita - Diário II (1987) e Inquérito às Quatro Confidências - Diário III (1996), da autoria de Maria Gabriela Llansol. A designação de "Diário" revela-se, porém, decetiva para o leitor que julgaria encontrar nestas páginas um registo autobiográfico e confessional em moldes tradicionais. Compreendendo que "um diário pode ser mais objetivo que uma vida pessoal" (p. 64), os familiares e as circunstâncias da vida situam-se num espaço exterior relativamente à consciência da narradora, e, se é certo que conserva uma ordenação cronológica e que evoca fragmentos do quotidiano, esse registo pessoal torna-se acessório relativamente a um outro discurso que obsidia a escrita, o do registo das diversas etapas de gestação e maturação dos livros. Das dúvidas, intuições, dificuldades que acompanham a produção literária - ocupando, nestas páginas, o rascunho mental e material de Lisboa leipzig uma parte considerável -, até ao orgulho com que verifica que livros concluídos ou publicados já cortaram o cordão umbilical com uma criadora que se institui então como sua primeira leitora, o registo da criação nestes fragmentos faz avultar a impressão de que a escrita constitui apenas um momento breve inserido num processo que se desenvolve de forma contígua com a vida, e de que a sua prosa, como diria Fiama, da criação poética, "vai sendo escrita, transformada, recordada, ao correr do tempo todo". A tal ponto que o próprio eu adquire o estatuto de figura, como Müntzer, Nietzsche ou Psalmodia, podendo colocar o "Diário, que diz respeito à ordem figural do quotidiano, ao lado de O Livro das Comunidades, Da Sebe ao Ser e de Causa Amante" (p. 72). Entre o Diário e o livro não existem limites demarcados, podendo, sem dificuldade, as páginas do Diário permutar livremente com as do livro, num caso ou noutro, a "maior responsabilidade é contribuir para que um livro seja um ser" (p. 83).
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