Universidade de Coimbra

A ratificação da fundação da Universidade de Coimbra foi realizada por D. Dinis, através de diploma régio emitido a 1 de março de 1290. Com efeito, Coimbra possui o mais antigo estabelecimento de ensino superior em Portugal, apesar de, durante toda a Idade Média, os estudos universitários terem oscilado entre esta cidade e a capital.
Em 1537, D. João III transferiu definitivamente a Universidade para a Lusa-Atenas, consolidando assim a tradição escolar anterior da cidade, alicerçada na cultura do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, ao mesmo tempo que afirmava a sua autonomia.
Situado no topo da mais nobre colina da cidade do Mondego, o Paço da Alcáçova - antigo palácio medieval onde permaneciam os reis durante a sua estadia em Coimbra - foi o edifício eleito para acolher a Universidade, vindo a ser reformulado nos reinados de D. Manuel I e D. João III. A cidade crescia à sombra da sua Universidade, ao mesmo tempo que os edifícios escolares eram objeto de reformas nos séculos XVII e XVIII. A Porta Férrea estabelece o acesso ao pátio das escolas, entrada nobre de cariz tardomaneirista, projetada pelo arquiteto António Tavares e executada por Isidro Manuel, a partir de 1633. O escultor Manuel de Sousa é o responsável pelo programa escultórico que o integra, alegorias que se referem às diversas faculdades - Medicina e Leis no exterior; Teologia e Cânones no interior -, e estátuas dos reis que as estabeleceram, D. Dinis e D. João III, para além da figura da Sapiência a coroar todo este conjunto.
No lado esquerdo da fachada estende-se o Colégio de S. Pedro, construção maneirista de linhas simples e austeras. Restaurada no século XX pela Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), esta ala foi prolongada. A sua fachada principal está virada para o pátio interior, onde se destaca o barroco portal de aparato, obra datada de 1713. S. Pedro foi edificado sobre os antigos aposentos palacianos dos Infantes, servindo até 1834 como albergue dos candidatos às diversas faculdades. A partir de 1855, parte das suas instalações serviu como aposentos da família real e como residência dos diversos reitores.
Entrando no Pátio das Escolas deparamos, ao lado direito, com a Via Latina, varanda ritmada por elegante colunata e alterada na segunda metade do século XVIII. No centro desta ergue-se uma escadaria nobre conducente a um corpo porticado e rematado por frontão triangular. No espaço da Via Latina destaca-se um retábulo escultórico em pedra, obra do escultor francês Claude Laprade e executada em 1701. No centro pode observar-se um medalhão com a figura de D. José I (feita posteriormente) sob um frontão curvo sustentado por dois atlantes. Na base da composição destacam-se as alegorias femininas da Justiça e da Fortaleza.
Através da Via Latina acede-se à Reitoria e suas dependências, reformuladas, na sua maior parte, na Reforma Pombalina de 1773, durante o reitorado de D. Francisco de Lemos.
Por esta comunicação também se pode chegar à Sala Grande dos Atos, mais conhecida por Sala dos Capelos, lugar onde decorrem as mais significativas cerimónias da vida académica. Este espaço ocupou o antigo salão nobre do paço manuelino, edificado por Marcos Pires durante a segunda década do século XVI. No século seguinte, o arquiteto António Tavares iria reformulá-lo por completo, podendo admirar-se o seu teto de madeira apainelado e pintado por Jacinto Pereira da Costa em 1655. Na galeria superior do salão encontram-se grandes telas com todos os reis de Portugal, pintados, até D. João IV, por Carlos Falch. Os restantes são realizados por diversos artistas nacionais. As paredes deste hierarquizado e ritualizado espaço académico são preenchidas por padronizados azulejos seiscentistas, em tons de azul, amarelo e branco, fabricados por uma oficina de Lisboa.
Retornando à Via Latina, caminhamos em direção dos Gerais, área das antigas salas de aula, dispostas em torno de um claustro de dois pisos. Os Gerais ocuparam as antigas instalações do paço da rainha, objeto de remodelação nos finais do século XVII e começos do seguinte, contando com os belos relevos barrocos alusivos às várias disciplinas universitárias e esculpidos no topo das portas das salas de aula, obra executada por Claude Laprade.
Ex-libris da cidade de Coimbra é a Torre da Universidade, erguida num dos ângulos do Pátio das Escolas. Entre 1728 e 1733 foi-se elevando esta elegante e erudita torre do Barroco Joanino. Na parte superior rasgam-se os arcos que contêm os sinos, tendo desempenhado um deles, a Cabra, importante papel regulador da vida universitária e da própria cidade.
Na continuidade da torre impõe-se a Capela de S. Miguel, templo manuelino ocupando a área de um oratório do paço medieval. As suas obras tiveram início em 1517, pertencendo a sua planificação ao arquiteto Marcos Pires, que faleceu em 1521 e foi substituído por Diogo de Castilho. O seu portal nobre é uma composição manuelina naturalista, de arco polilobado e colunas torsas, onde se inserem símbolos relativos à Crucificação de Cristo e à heráldica de D. Manuel I. A parede exterior é rasgada por vários janelões manuelinos e coroada por merlões chanfrados e uma pequena torre sineira.
O interior da capela apresenta-se com as paredes forradas por policromos azulejos seiscentistas, combinando com a talha e o minucioso trabalho pictórico de chinoiserie do magnífico órgão barroco, obra executada em 1737 por Gabriel Ferreira da Cunha.
Na capela-mor destaca-se o imponente retábulo maneirista, empreendimento projetado por Bernardo Coelho e executado pelo entalhador Simão da Mota durante o primeiro quartel do século XVII. Domingos Vieira Serrão e Simão Rodrigues, excelente parceria de pintores maneiristas, compuseram as tábuas alusivas à vida de Cristo. Na tribuna do retábulo foi colocado um belo trono escalonado, obra setecentista em talha dourada. Suspenso do arco cruzeiro está um lampadário de prata, obra-prima da ourivesaria dos finais do século XVI e realizada pelo ourives Simão Ferreira.
A pintura do teto da nave da capela é obra dos finais do século XVII, concebida pelo artista lisboeta Francisco Ferreira de Araújo. Sobre o coro alto foi edificada, durante o último quartel do século XVIII, uma tribuna real.
No átrio interno da capela situa-se a entrada de uma dependência convertida em Museu de Arte Sacra, onde se podem admirar algumas das melhores obras de ourivesaria, paramentaria e pintura pertencentes ao acervo deste estabelecimento universitário.
Na continuidade da Capela de S. Miguel ergue-se a magnífica Livraria da Universidade, vulgarmente designada por Biblioteca Joanina, empreendimento barroco concretizado entre 1717 e 1728, sob o patrocínio de D. João V. É uma construção dividida em dois pisos, salientando-se o seu andar superior. A sua equilibrada fachada exterior é marcada por um monumental portal de arco de volta perfeita, assente em dupla colunata jónica e encimado por aparatoso escudo real de D. João V.
O triunfante interior barroco reparte-se por três salas quadrangulares, divididas por arcos de volta perfeita, onde se inserem emblemas universitários em talha dourada, sobrepujados por coroa real de D. João V. A parede da última sala é preenchida por notável estrutura cenográfica em talha dourada e policromada, moldurando um grande retrato de D. João V, provavelmente pintado pelo italiano Domenico Duprà (c. 1730).
As três salas - verde, vermelha e preta - são revestidas por magníficas estantes de madeira, decoradas por talhas e delicada chinoiserie de motivos exóticos dourados, obra pictórica executada por Manuel da Silva. Os tetos apresentam pinturas alegóricas e estruturas arquitetónicas em trompe l'oeil, da autoria dos pintores lisboetas António Simões Ribeiro e Vicente Nunes.
Para além da riqueza dos materiais e do requinte artístico da decoração barroca, a Biblioteca Joanina possui alguns dos mais raros e importantes livros existentes em fundos bibliográficos nacionais, consubstanciando-se, deste modo, como um verdadeiro templo artístico consagrado ao saber humano.
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