Verdadeiro Método de Estudar

Esta obra, verdadeiro manifesto de modernidade do pensamento de Luís António Verney, à luz da Europa iluminista, apresenta-se em dois generosos volumes publicados em 1746 e reeditados em 1747. Escrita por um enigmático Barbadinho da Congregação de Itália, máscara onomástica do nosso renovador, revela um progressismo notável na orientação pedagógica nova que defende, profundamente articulada com as correntes filosófico-culturais da época e com os conceitos basilares do Iluminismo, e motiva, por este seu carácter inovador, fortíssimas reações e acesa polémica.O Verdadeiro Método de Estudar é constituído por 16 cartas dirigidas a um doutor de Coimbra e dado em oferta aos padres da Companhia de Jesus. Abre com uma carta-prefácio redigida em nome de António Balle, o impressor do livro, a qual pode dividir-se em três partes.Na primeira parte apresentam-se os motivos (simulados, claro) desta correspondência e a conveniência em publicá-la.A obra é dedicada aos jesuítas, na segunda parte desta carta, e são enaltecidos os méritos da ordem e o seu papel notável em prol da cultura entre nós.Finalmente, na terceira parte são esclarecidas algumas questões de ortografia e termos novos usados na impressão da obra.Elabora-se, seguidamente, um plano completo da instrução pública com referência aos mais diversos assuntos como a aprendizagem do português, que deveria ser feita por Gramática Portuguesa e não latina; a defesa do uso de estrangeirismos e de palavras novas; a apresentação de uma gramática latina moderna com dificuldades graduadas; a explanação de planos de estudo do Grego e do Hebraico; a exortação ao estudo das línguas modernas, sobretudo do Francês e do Italiano; a divisão da Retórica em várias espécies; a ridicularização do estilo barroco e dos seus vários processos cultistas e a crítica a Camões, a cuja obra são apontados defeitos. Nas cartas VIII, IX, X e XI há referências à Filosofia e à Física, pela defesa de Descartes, Bacon e Newton e pelo destaque do seu contributo para o progresso científico. A Metafísica não é aceite como independente e é reduzida à Lógica e à Física. Verney critica ainda a nobreza de sangue, defendendo que a única nobreza está na cultura, na educação e na simplicidade. Disserta ainda sobre Medicina, nas cartas XII e XIV, apontando métodos e programas de curso para a sua aprendizagem e lamentando o escasso estudo de anatomia. Finalmente, expõe um plano geral de estudos e aborda a educação da mulher: defende a sua instrução, pois "pelo que toca à capacidade, é loucura persuadir-se que as mulheres tenham menos que os homens". Considera que a mulher deve aprender Gramática Portuguesa, Geografia, a Bíblia, a História dos Gregos, dos Romanos e de Portugal e noções de economia doméstica, canto, música e dança.As ideias expostas nesta obra nem sempre primam pela originalidade, dado que Verney alicerça-se em luminares estrangeiros propensos a uma desvalorização da metafísica, cientistas de base experimental e pedagogistas de orientação racionalista como Locke (relativamente ao aspeto filosófico), Newton e Boerhaave (no que toca o lado científico) e Rollin, Fénelon e Lamy (relativamente ao aspeto pedagógico). Todavia, Verney não deixou de ser o mais importante dos estrangeirados, dado que, após a divulgação do seu programa de renovação, assistimos à ultrapassagem do reinado da escolástica dos jesuítas medievalizantes, expulsos por Pombal, e à sua substituição no ensino pela empreendedora Congregação do Oratório, edificadora da modernidade científica no ensino superior. O seu mérito encontra-se ainda no modo singular como conseguiu conjugar todo um caudal de informações de origem variada.As posições de Verney não deixam dúvidas: alicerçado numa crítica à orientação escolástica tradicional, insurge-se contra a Companhia de Jesus, contra a entrega aos frades do ensino da ciência, contra a Inquisição e contra os processos do Tribunal do Santo Ofício.A linguagem da sua obra é familiar e sóbria, franca e despreocupada, objetiva e direta.O Verdadeiro Método de Estudar desencadeou uma violentíssima polémica, a qual se estendeu para além fronteiras e perdurou durante muitos anos. Verney viu-se obrigado a publicar quatro réplicas (Respostas às Reflexões de Frei Arsénio da Piedade, Carta do Filólogo de Espanha, Parecer do Doutor Apolónio Filomuso e Última Resposta) contra os que o atacaram, que tantos foram, embora nenhum se mostrasse à sua altura.
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