Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura
Da autoria de Batista-Bastos e editado em 1981, foi considerado por alguns críticos literários como um dos romances portugueses mais originais e fascinantes dos últimos anos.
Numa escrita muito próxima da prosa de Raul Brandão, o romance procede à dissolução das categorias de espaço, tempo, intriga e personagens, pondo em relevo as potencialidades significantes e poéticas da frase.
Operando uma constante interseção entre o onírico, a visão expressionista do mundo e, subliminarmente, a perspetiva histórica que inscreve este romance numa consciência da falência coletiva ("No fundo, não fui só eu que falhei: falhámos os dois. Todos. Também quis saber o que havia do outro lado do arco-íris, e abril foi para mim o regresso ao tempo em que as raparigas comiam rosas.
Mas esquecera-me, ou recusava aceitar, que iam acontecendo outras coisas, que as coisas se transformavam, mudavam e alteravam sem eu estar no seu eixo, sem entender o pulsar do seu coração", p. 124), descreve a viagem no tempo da memória e num espaço entre quotidiano e fantástico que o Filho efetua até reencontrar o Pai (o Velho), numa experiência dolorosa pela qual o reconhecimento do outro se transforma em "autorretrato": "Tornado irreal, quer pelo mundo de fantasia em que é apresentado quer pelo estatuto narrativo em que é colocado, o Velho projeta-se especularmente no sujeito, que assim figura o seu duplo e com quem pode dialogar sobre o tempo que passa inexorável: ou a quem pode livremente acusar de faltas que o eu se nega assumir; ou de quem pode obter juízos que vão acentuando a obsessão pelos quarenta anos já vividos [...] até chegar ao derradeiro autorretrato total que contempla quer a exterioridade física [...] quer a interioridade emocional e afetiva [...]." (MARTINS, Manuel Frias - Sombras e Transparências da Literatura, Lisboa, 1983, p. 176).
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