Viagens na Minha Terra

Obra da autoria de Almeida Garrett, publicada em folhetins entre 1845 e 1846 na Revista Universal Lisbonense (que já dera a conhecer alguns fragmentos em 1843) e editada em volume em 1846. Livro "inclassificável", representa uma obra única do Romantismo português e da literatura portuguesa, constituindo-se como ponto de arranque da moderna prosa literária portuguesa, quer pela estrutura aparentemente desconexa e inovadoramente compósita, quer pela ductilidade da linguagem (ora clássica ora popular, ora jornalística ora dramática, ressaltando a vivacidade de expressões e imagens, pelo tom oralizante usado pelo autor, que desta forma libertou o discurso da pesada tradição clássica), quer sobretudo pela densidade do significado.
Na obra, entrelaçam-se dois níveis narrativos: o relato de uma viagem entre Lisboa e Santarém, entremeado de reflexões e divagações do narrador acerca da realidade portuguesa, e a novela da "Menina dos rouxinóis", a narração da história de amor entre dois primos, Carlos e Joaninha, situada na época das lutas civis entre absolutistas e liberais. Carlos, máscara ficcional de Garrett, encarna o homem romântico. O narrador transmite uma visão desencantada da Nação, minada pela ganância e pelo materialismo, onde até a literatura padece de falta de ideal e de originalidade. Assim sendo, a obra vale também pela análise da situação política e social do país e pela simbologia que Frei Dinis e Carlos representam: o primeiro pelo que ainda restava do Portugal velho, absolutista; e o segundo pelo que representa, até certo ponto, do espírito renovador e liberal. No entanto, o fracasso de Carlos é em grande parte o fracasso do país que acabava de sair da guerra civil entre miguelistas e liberais.
Como referenciar: Viagens na Minha Terra in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-07-23 22:57:00]. Disponível na Internet: