Voz Inicial

Voz Inicial inaugura uma nova fase na poesia de António Ramos Rosa, na passagem de uma escrita que, nos dois volumes surgidos no final da década de 50, O Grito Claro e Viagem Através de uma Nebulosa, denunciava o efeito dos condicionalismos sociopolíticos sobre a consciência individual, para uma aventura poética marcada por certas preocupações, designadamente a "procura da nudez, da essencialidade do mundo original e elementar" e a "reflexão sobre o ato poético", sobre a "natureza verbal da poesia" (MARTINHO, Fernando J. B. - Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa da Década de 50, Lisboa, Colibri, 1996, p. 244). Com efeito, a atenção conferida à espessura ontológica evocada ou criada pela palavra "sem mais" (cf. "A Palavra": "A que mais se prolonga / termina e continua / A que abre um espaço e dança / a que se quebra e é uma / e só lisa espada / Ó palavra que duras / no teu ar e nas pedras / brilhas só quando passas / respiras continuas / ó palavra sem mais" in Voz Inicial), colocará António Ramos Rosa na linhagem de um lirismo depurado, exigente, atento ao poder da palavra no conhecimento ou na fundação de um real dificilmente dizível ou inteligível, e fará do autor de Voz Inicial um dos paradigmas da poesia portuguesa dos anos 60, década inaugurada com o projeto Poesia 61, até certo ponto afim da sua arte poética. Numa poesia que, a partir de Voz Inicial, segundo Eduardo Lourenço, "enfim, volta costas com clarividente propósito ao mesmo tempo ao ideologismo críptico e metafórico da segunda fase do neorrealismo, como ao abandono imagético do surrealismo [...] é ao rés das coisas e quase além delas, na zona de contacto difícil de evocar, entre o que ainda não é "eu" nem "coisa", mas donde um e outra se levantam, que Ramos Rosa instala a nova aventura do imaginário português." (LOURENÇO, Eduardo - Tempo e Poesia, Porto, Inova, p. 221.)
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