Reinaldo Ferreira
Filho do jornalista homónimo (conhecido pelo pseudónimo de Repórter X), Reinaldo Ferreira viveu em Moçambique entre 1941 e 1959, data da sua morte, motivada por um cancro.
Colaborou em revistas musicais, foi autor de algumas letras de canções que obtiveram êxito e participou em teatro radiofónico.
Foi um dos editores da folha de poesia Msaho (Lourenço Marques, 1952), tendo ainda colaborado em publicações como A Voz de Moçambique, Capricórnio ou Paralelo 20.
Divulgando pouco a sua obra poética, a edição póstuma de Poemas surpreendeu os leitores metropolitanos que encontraram num autor quase anónimo alguns dos mais belos poemas da literatura portuguesa, parecendo ter sido o zelo por uma vida retirada e a obsessão da perfeição as explicações plausíveis para que não tenha publicado em vida nenhum volume.
Incluída numa linhagem que passa por Camilo Pessanha, Cesário Verde ou Fernando Pessoa, e que se distingue, a nível da forma, pelo culto do rigor, por um expressivo trabalho métrico, rítmico e lexical do verso, a poesia de Reinaldo Ferreira, para Fernando J. B. Martinho, "só muito raramente reflete os valores do que os estudiosos das literaturas africanas de língua portuguesa consideram a moçambicanidade [...], devendo, antes, ela ser enquadrada no âmbito da poesia portuguesa, pela situação de inequívoco herdeiro do primeiro e do segundo modernismos que é a do poeta (cf. MARTINHO, Fernando J. B., op. cit., 1996, p. 452).
O título que projetara para o seu primeiro livro de poemas "Um Voo Cego a Nada" constitui uma chave para a interpretação de um pensamento obsidiado pela suspeita da "completa sem-razão das coisas e do mundo", apenas compensada numa "expressão poética rigorosa, nítida, altiva, sabiamente contida, por vezes quase majestosa na sua dignidade cheia de pudor, com um quase omnipresente recurso à auto-ironia, sempre suspeitosa de um demasiado deixar-se comover." (cf. "introdução" anónima, incluída na primeira edição dos Poemas, 1960).
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