A Arte e os Ritos

O Paleolítico superior oferece-nos as primeiras manifestações artísticas do homem. As primeiras ocorreriam no Aurinhacense e terminariam no Magdalenense. Note-se que o Aurinhacense encontra-se muitas vezes interestratificado com o Perigordense. As datações do Aurinhacense (ca. 28 000 a. C.) coincidem com uma fase de clima temperado que alcançou o auge no interestádio glaciar do Würm III. A maioria das várias teses desenvolvidas aponta para uma estreita ligação da arte parietal e da arte móvel a certas práticas de culto e rituais mais ou menos complexas, dependendo dos diferentes tipos de associação de imagens ou do período cronológico a que pertencem. Para além da revelação de impressionante habilidade técnica e sentido estético, são ainda o testemunho de uma complexa espiritualidade.
A análise recaiu essencialmente sobre as pinturas e gravuras nas paredes de grutas ou de abrigos e sobre as estatuetas e plaquetas esculpidas e gravadas.
A arte paleolítica no seu conjunto estende-se da Península Ibérica à Sibéria. Embora existam vestígios destas diferentes formas de expressão em toda a área referida, os sítios arqueológicos onde se verificou a existência de maiores quantidades de pintura foi em Espanha e na França. Por seu turno, a existência de esculturas ocorre com maior frequência na Eurásia. No que diz respeito à pintura, distinguem-se três centros importantes: o primeiro corresponde à zona da Dordonha e Corrièze; o segundo à vertente setentrional dos Pirenéus (Ariège e Alto Gerona); e o terceiro estende-se pela Cordilheira Cantábrica. Ainda se podem assinalar alguns sítios importantes na Península Ibérica, nomeadamente o impressionante conjunto recentemente descoberto no Vale do Coa, em território português, e em Itália. Justo é referir o aparecimento de 85 jazidas de pintura só na Península Ibérica. Através da análise das diversas grutas nota-se a presença de artistas num mesmo local ao longo de cronologias muito dilatadas, o que indica que a gruta não foi pintada de uma só vez nem pela mesma pessoa, uma vez que a qualidade de execução é bastante variável, como acontece em Lascaux, cuja observação aponta para a falta de homogeneidade entre as diversas figurações, pois foram feitas em períodos completamente diferentes. Para perceber a importância da localização dos conjuntos, enumeram-se alguns dos sítios. Em França destacam-se várias grutas: Arcy, na zona setentrional; Rouffignac, no Périgord, datada do Madalenense médio e superior; Les Eyzies, junto ao Vézère; Les Combarelles, próxima da última, pertencente ao Madalenense médio; Lascaux, em Montignac, que é uma das mais importantes do fim do Solutrense e início do Madalenense médio (Estilo III-IV, segundo divisão tipológica criada por A. Leroi-Gourhan); Pech-Merle chamada grotte-temple; Niaux, na região pirenaica francesa, do Madalenense; Trois-Frères, onde surgiu a representação semi-humana de um provável feiticeiro; Gargas, com um enorme número de mãos mutiladas.
Em Espanha. entre os principais achados da região cantábrica salientam-se: El Pindal, do Estilo IV; Altamira, a mais importante, com um impressionante inventário zoomórfico e de sinais atribuído por Breuil ao Aurinhacense-Perigordense (figuras antigas), Solutrense final e Magoalenense inferior (figuras negras) e Magoalenense (figuras policromas); El Castillho, onde surgiu um núcleo razoável de arte móvel e figuras pintadas pertencentes ao Estilo II e IV; e Las Monedas, do Estilo IV.
Em Portugal contam-se dois importantes sítios de arte rupestre do Paleolítico: a Gruta do Escoural, em Montemor-o-Novo, com pintura e gravura e as gravuras do Vale do Coa, que se estendem em dezenas de rochas ao longo de 18 km ao ar livre, importante achado que põe em causa a ideia de que a arte paleolítica era uma arte exclusiva de grutas e de abrigos.
Dos achados em território italiano destacam-se as grutas de Romanelli, Levanzo e de Paglicci.
A Europa Central e os territórios russos são férteis em exemplares de arte móvel; é o caso de Willendorf e Buriet, respetivamente.
Impõe-se uma reflexão sobre o processo de trabalho usado pelos artistas do Paleolítico para uma melhor compreensão de certos aspetos ligados à interpretação das pinturas e gravuras. As cores utilizadas na elaboração da pintura rupestre são o ocre, proveniente de argilas, óxidos de ferro e terras naturais que, conforme a quantidade empregue, nos mostra várias tonalidades, e o preto, obtido através de carvão vegetal ou de ossos calcinados. Podiam ser utilizadas a seco ou então emulsionadas em algum veículo que poderia ser água ou matérias gordas. A aplicação fazia-se através dos dedos, de pincéis de penas ou de fibras vegetais ou diretamente usando pedras macias e madeiras queimadas. Grande parte das vezes era feito o desenho da figura antes de lhes dar cor. Normalmente as figuras apresentam uma só cor, aparecendo esporadicamente duas cores.
No que diz respeito às gravuras e ao relevo, pode inventariar-se um certo número de técnicas que vão desde a picotagem, passando pela definição de linhas através de materiais de abrasão e de desbaste de materiais até se conseguir figurações em baixo-relevo e alto-relevo. Saliente-se que o relevo e a gravura são mais comuns em abrigos abertos do que nas grutas, onde geralmente se procede à associação de gravuras com pintura.
As composições são muito variadas: verifica-se muitas vezes a existência de figuras em sobreposição, mas também surgem ao lado umas das outras sem aparente ligação e agrupadas. Assinala-se a ausência total de perspetivação e nunca existe a referência a paisagem como fundo. O método de representação mais frequente é a utilização de silhueta com traço contínuo, ponteado e esfumado, que em alguns casos passam a ter o dintorno preenchido por traços ou por tinta. Muitas vezes as composições eram organizadas por forma a aproveitar a configuração geológica da gruta, os relevos e as fissuras da parede que iria suportar a pintura.
Foi durante o Aurinhacense (ca. 30 000) que se fizeram as primeiras figuras gravadas ou pintadas. Durante o Gravetense e o Solutrense (25 000 - 18 000) as figuras zoomórficas passam a ser mais definidas e destaca-se a sinuosidade da linha que delineia o dorso. Leroi-Gourhan classifica-as no Estilo II. O Solutrense recente (18 000-15 000) evidencia já uma grande qualidade na execução de figuras animais, apresentando corpos muito desenvolvidos (corresponde ao Estilo III). O Magoalenense (15 000-11 000) forma o período clássico, significando o auge da arte paleolítica, com os animais muito bem proporcionados e apresentando pormenores muito realistas (estilo IV antigo). Quando o Magoalenense chegou ao fim, entrou em regressão a arte parietal (Estilo IV recente).
A temática patente nas grutas descobertas pode dividir-se por três grandes grupos: os animais, os sinais e os seres humanos. O cavalo, o bisonte e os sinais são os que mais frequentemente foram representados nas grutas. A observação dos diferentes tipos de animais numa gruta aponta-nos dados muito importantes para a sua análise: em primeiro lugar, fica demonstrado o valor da representação de animais no seio de sociedades de caçadores e, em segundo lugar, as diferentes espécies aí expostas podem indiciar a datação aproximada da execução das pinturas com o auxílio dos dados fornecidos pela Paleontologia. Para além dos animais referidos, surgem em ordem decrescente cabras, renas, cervos, ursos, peixes, felinos, aves, mamutes e rinocerontes-lanudos.
Os sinais são de difícil interpretação, o que tem gerado alguma discussão em torno da sua significação - armadilhas, sexos, cabanas, armas, etc. Estão presentes na quase totalidade das grutas e por isso devem ter desempenhado um papel preponderante no universo estético dos homens que os executaram.
As figurações humanas também estão presentes nas pinturas e nos relevos, representadas de diversas formas, marcadas ou por um grande realismo ou pela estilização extrema. Estão igualmente presentes figuras masculinas e figuras femininas nos objetos esculpidos, todas elas nuas, ressaltando o facto de que quase todas as figuras femininas apresentam muito desenvolvidas as partes do corpo com uma direta ligação à fertilidade e maternidade (os seios e as ancas), como por exemplo a "Vénus" de Laussel. É significativo o facto de no interior das grutas as representações equivalentes ao elemento feminino aparecerem sistematicamente no centro dos conjuntos pictóricos, o que leva a pensar na conotação sexual das representações. Umas das mais frequentes representações do corpo humano são as mãos, que aparecem em positivo (mão colorida que era impressa sobre a rocha) ou negativo (utilização de tinta soprada sobre a própria mão, que depois se retirava do contacto com a parede), por vezes com falta do dedo miudinho, que muitos interpretaram como sinal de mutilação intencional, obedecendo a algum ritual. Mas, segundo Leroi-Gourhan, poderá simplesmente ligar-se a um modo de representar um sinal simbólico.
Têm-se levantado muitos problemas na interpretação dos achados, e, na tentativa de explicar o significado das figurações gravadas, pintadas e esculpidas, têm-se gerado várias teses. As que surgiram em primeiro lugar propunham a leitura em duas vertentes: uma que as considerava formas de expressão artística que apenas tinham como motivação a estética (ideia de arte pela arte) e outra que apontava para o carácter prático que incluía todo um cerimonial religioso ou mágico próprio. A primeira propunha uma explicação baseada no facto de que em período de abundância de recursos haveria mais tempo para o ócio e, por conseguinte, para uma prática da arte. Esta correlação foi posta em causa através da observação de algumas tribos que não praticam arte, embora tendo fartos recursos. A segunda, desenvolvida por Frazer, segundo o método dos paralelismos etnográficos, remete para a magia homeopática, segundo a qual é possível obter algo através da imitação. Assim, os animais pintados e gravados nas paredes da gruta poderiam ser caçados facilmente, pelo simples facto de terem sido imitados. Na zona mais distante da gruta os feiticeiros da comunidade faziam entrar os iniciados, pintavam e gravavam as figuras dos animais e feriam-nas simbolicamente, garantindo, desta forma, o sucesso na caçada. As mãos funcionariam como ex-votos deixados pelos iniciados, que, depois da cerimónia, passariam a pertencer ao grupo dos caçadores. Esta seria a explicação baseada no uso da magia contemplando o cerimonial propiciatório da caça e da fertilidade, pois as espécies mais representadas são as que mais frequentemente se consomem e as pinturas revelam muitas vezes a presença de fêmeas prenhes associadas à existência de figuras esculpidas de "vénus".
H. Breuil iria avançar com outra explicação que levava em linha de conta a religião e não tanto a magia. Considerava que as cerimónias e ritos são realizados depois das pinturas terem sido feitas e que a associação de signos aos conjuntos poderá querer exprimir a ideia de um ser espiritual. As grutas seriam então "santuários" onde eram realizados ritos e cerimónias.
A. Leroi-Gourhan, no seguimento de pesquisas anteriormente efetuadas por Laming-Emperaire, marcaria uma nova etapa para as mais recentes interpretações da arte rupestre. Após a observação de um largo conjunto de sítios, chegou à conclusão de que constituíam santuários organizados e que as figuras apareciam associadas intencionalmente obedecendo a padrões: o cavalo (A) associava-se com um determinado tipo de temas e o bisonte (B), por seu turno, também se encontrava associado a outros temas. Esta representação dual também se relacionava com o sistema de signos. Assim, ao cavalo associavam-se signos aos quais foi atribuído um significado masculino (linhas, pontos, etc.) e figurações de homem e ao bisonte associavam-se os signos femininos (ovais, triângulos, etc.) e figurações de mulher. O desenvolvimento dos grupos de temas ao longo da gruta varia de intensidade, sendo que os temas de carácter masculino apareciam na abertura e no fundo das grutas e a interceção dos dois temas se fazia na zona intermédia, obedecendo a sistemas de justaposição, oposição, harmonização e associação. Desta forma, a arte presente na gruta teria um valor eminentemente simbólico, ligado aos princípios masculino e feminino postos em confronto ou conjugados, revelando a composição do Universo. Segundo esta teoria, poderemos estar perante uma complexa conceção de ritos ligados à fertilidade.
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