A Paixão

Primeiro romance do ciclo "Trilogia Lusitana", de Almeida Faria, publicado em 1965, que inclui ainda Cortes e Lusitânia, e que seria encerrado com Cavaleiro Andante. O romance encontra-se divido externamente em três partes correspondentes a três momentos (Manhã, Tarde, Noite) do dia de Sexta-Feira Santa, e, internamente, em capítulos numerados que apresentam de forma alternada o ponto de vista das dez personagens que habitam a casa da propriedade de Cantares, no Alentejo: o pai, Francisco; a mãe; os cinco filhos (João Carlos, Arminda, Jó, André e Tiago); duas criadas (Piedade e Estela) e um criado velho, Moisés. À modalidade de narrativa plurivocal, fundada na apresentação de pontos de vista diversos, complementares e opostos sobre a realidade, acresce como fio condutor dos diversos discursos uma escrita poemática, de pontuação livre, recorrendo com frequência, no seu continuum quase lírico, a figuras de estilo como a aliteração, a paronímia, a anáfora, o hipérbato e, sobretudo, a metáfora. Para Óscar Lopes, A Paixão propõe "uma meditação em torno do tempo concreto, humanamente vivido, um tempo que (histórica e individualmente considerado) degenera e se regenera periodicamente", entre o ciclo diurno e o ciclo noturno, entre o inverno e a primavera, entre a Paixão e a Ressureição, entre a infância e a velhice, a tal ponto que "todos os momentos de cada sua personagem são como o momento de uma Paixão e Ressureição do Homem que as circunstâncias históricas singularizam em cada homem" (cf. LOPES, Óscar, prefácio a A Paixão, de Almeida Faria, Lisboa, Caminho, 1986, p. 13). Para Cristina Robalo Cordeiro Oliveira (A Paixão de Almeida Faria, Coimbra, INIC, 1980), a "marca mais profunda existente em A Paixão é, sem dúvida alguma, a que tenta a conciliação do fundo ideológico do neorrealismo português - onde se alinham as ideias de injustiça e desigualdade sociais, de luta de classes, de opressão e violência exercida sobre o povo pela classe dominante - com uma nova técnica romanesca que revoluciona o tratamento do texto, motivada por uma crise de consciência, uma evidente inquietação estética e espiritual do artista-criador." (op. cit., pp. 52-53), pelo que, depois de A Paixão, "em vez de realismo objetivo, que busca o 'aspeto originário' das coisas, é preferível falar, em Almeida Faria, de visão interpretativa, realismo crítico, situação de compromisso entre uma escrita e uma ideologia" (op. cit., p. 60).
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