Arte Egípcia

Introdução
No âmbito do mundo mediterrânico antigo, a cultura egípcia foi a que conheceu maior longevidade (prolongou-se por cerca de três mil anos). Desenvolvida num território estruturado por um longo rio, o Nilo, esta civilização viveu numa situação de semi-isolamento em relação aos outros povos da região.
A sua história divide-se em três períodos principais: Monarquia Antiga, Monarquia Média e Monarquia Recente, cada um intercalado por um Período Intermédio. Uma última fase, geralmente designada por Época Baixa, constituiu o período de decadência que antecedeu a conquista pelos romanos em 30 a. C. Uma das características mais significativas da arte egípcia é a unidade dos seus fundamentos estéticos e filosóficos (diretamente derivados das crenças religiosas da vida após a morte) e a consequente continuidade estilística que este facto determinou. As principais formas artísticas egípcias foram definidas e canonizadas durante a primeira fase do império, recusando quase sistematicamente qualquer influência exterior. A arte, respondendo à necessidade primária de glorificação do poder religioso e, consequentemente, do próprio faraó (que era então considerado um deus vivo), assumia um carácter acentuadamente narrativo, representativo e monumental.

Arquitetura
No contexto da arte egípcia, a arquitetura tinha a função primordial de representação do poder político e religioso, simbolizados pelo faraó. Assim se entende que os testemunhos arquitetónicos que sobreviveram até hoje sejam de natureza fundamentalmente religiosa, podendo enquadrar-se em duas categorias: o templo, onde se realizava o culto aos deuses, e o túmulo, onde eram colocados os corpos mortos, de forma a serem preservados durante a vida após a morte.
Os mais antigos túmulos construídos por este povo, designados por mastabas, possuíam uma estrutura muitos simples, constituída por dois elementos principais, um pequeno edifício prismático baixo, construído em tijolo ou pedra, e um espaço funerário soterrado, ao qual se acedia por um poço central.
Durante o Período Antigo, a forma do túmulo desenvolve-se, transformando-se nas gigantescas construções em forma piramidal que se tornaram o símbolo da própria civilização.
Um dos mais antigos túmulos deste tipo é a pirâmide de degraus de Djoser, de Saqqarah, um monumental complexo funerário fortificado, construído nos limites da terra fértil, junto a Mênfis, a capital. Era formada por uma série de mastabas retangulares, de dimensão decrescente, sobrepostas, de forma a evocar uma grande colina. A sua autoria é atribuída a um misterioso arquiteto Imhotep.
Os melhores exemplos desta tipologia funerária, que constituem o apogeu da arquitetura do Antigo Império, erguem-se no planalto de Gizé, uma região desértica., formando um complexo constituído pelas três pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos (faraós da quarta dinastia), pela enorme estátua de Quéfren, a Esfinge, e por um conjunto de mastabas dos altos funcionários do estado, formando uma autêntica cidade dos mortos (necrópole). Nestas pirâmides, a câmara funerária era "escavada" no centro do volume e tinha acesso por um longo corredor.
Abandonando as grandes construções tumulares em forma de pirâmide que caracterizaram a arquitetura da Monarquia Antiga, assistiu-se, durante as Monarquias Média e Moderna ao desenvolvimento tipológico do templo.
O templo egípcio era um vasto conjunto de edificações, organizadas axialmente e delimitadas por uma cerca. Uma avenida de acesso, geralmente rodeada por esfinges, por onde se realizavam as grandes procissões festivas, conduzia à fachada do templo. Esta era marcada por duas torres de forma tronco-piramidal, junto às quais se erguiam altos obeliscos ou estátuas de faraós. Através da monumental porta passava-se para um pátio porticado, de acesso público. Seguia-se a Sala Hipóstila, um espaço de grande altura, cuja cobertura era suportada por inúmeras colunas. Era um espaço reservado aos Sacerdotes. A partir daqui o espaço torna-se simultaneamente mais restrito e escuro, culminando no santuário onde estava guardada a estátua do deus.
Esta solução tripartida do templo (um pátio público, uma sala hipóstila e um santuário) está presente nos dois principais edifícios sacros egípcios: o templo de Amon-Rá em Carnac e o templo de Luxor, erguidos junto a Tebas, a capital do Novo Império.
De entre os templos funerários construídos durante este período, destacam-se os da raínha Hatchepsut em Deir-el-Bahari e os de Ramsés II em Abu Simbel. O túmulo de Hatchepsut, parcialmente escavado na rocha, era formado por terraços ascendentes, suportados por pórticos, aos quais se acedia através de longas rampas. Os dois templos de Ramsés II foram escavados na rocha e dotados de monumentais fachadas esculpidas que ostentavam grandes estátuas do faraó.

Artes plásticas
Na cultura egípcia, as artes plásticas, nomeadamente a pintura e a escultura (e de certa forma as artes decorativas), surgiam quase invariavelmente associadas ou integradas em estruturas arquitetónicas de carácter religioso.
A escultura egípcia recusava a sensação de movimento pelo que as figuras, sentadas ou em pé, ganhavam um carácter rígido e hierático. Uma regra canónica estabelecia as proporções e simbologia para a representação de deuses, faraós ou altos funcionários.
Tal como as restantes formas artísticas, a escultura egípcia estava intimamente ligada à produção de objetos funerários, dos quais se destacam as imagens dos defuntos, designadas por Ka. Representando idealmente o morto, estas imagens serviam para substituir o corpo mumificado em caso de degradação. A necessária identificação da pessoa era assegurada pelo cuidado colocado na individualização do rosto e pela inscrição do seu nome no pedestal (soluções adotados igualmente pelos escultores sumérios).
Durante a Monarquia Média atingiu-se um maior naturalismo na representação, tendência que será reforçada durante a fase seguinte. Para além das monumentais estátuas em pedra, foram realizadas pequenas esculturas em madeira, representando figuras humanas, edifícios ou animais, que eram colocadas nos túmulos, acompanhando o faraó na vida além morte.
O reinado do faraó Amenófis IV, conhecido por Akhenaton, representou um momento de rutura para a cultura e para a arte egípcias. Instituindo o novo culto do Deus Solar, Akhenaton procurou concretizar o seu ideal com a construção de uma nova capital política e religiosa. As artes plásticas deste período caracterizaram-se por um maior realismo que contrariava as anteriores soluções canónicas e idealizadas. O artista ganhou maior liberdade no tratamento expressivo das figuras, sendo permitido acentuar, nos retratos, os defeitos da personagem representada. A mais interessante estátua deste reinado é o delicado retrato colorido da rainha Nefertiti, mulher de Anmenófis IV.
Reinstaurados os antigos cultos por Tutankhamon, assistiu-se então a uma gradual recuperação das tendências idealizadoras da fase anterior à revolução de Akhenaton. Os grandes retratos de Ramsés II, colocados sobre a fachada do seu túmulo em Abu Simbel, constituem o melhor exemplo da estatuária do período final da arte egípcia.
Os mais antigos testemunhos de pintura egípcia, para além das decorações de peças cerâmicas e de objetos utilitários, encontram-se associados aos túmulos primitivos. Executada sobre as paredes das câmaras funerárias, esta pintura, que se desenvolveu, com grande unidade estilística, ao longo de toda a civilização, caracterizava-se pelo sentido eminentemente narrativo e descritivo (acentuado pela frequente integração de imagens e de textos), pelo valor simbólico, identitário e hierárquico das formas e da cor e pela estilização dos objetos e do corpo humano (representado de forma pouco articulada, como se fosse observada a partir de vários ângulos). Era frequente a aplicação de pintura sobre superfícies com baixos-relevos.
Para além das qualidades artísticas, estes trabalhos assumem um importante papel histórico-documental pela considerável informação que fornecem sobre os usos e costumes deste povo.
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